O cuidado que atravessa vínculos, forma sujeitos e transforma trajetórias (Abril/2026)
Vivemos em um tempo apressado, marcado pela velocidade e pelo excesso de estímulos, em que corremos o risco de não nos percebermos e, mais ainda, de não percebermos o outro. Em meio à superficialidade das relações, construir conexões profundas torna-se um desafio contemporâneo.
À luz da teoria do apego, no campo da Psicologia do Desenvolvimento, sabemos que algumas experiências são fundamentais para a constituição de relações de cuidado. Entre elas, destaca-se a experiência de sentir-se percebido, de ser verdadeiramente visto e sentido pelo outro. Nas relações de proximidade, isso se expressa quando alguém é capaz de nos “ler”, pelo tom de voz, pelo olhar ou pela postura, reconhecendo aquilo que estamos sentindo, mesmo quando não dizemos. A pressa da vida moderna, no entanto, muitas vezes nos distancia dessa escuta sensível, inclusive em relação àqueles que estão mais próximos, seja no ambiente familiar, seja na sala de aula. Assim, abrir-se para perceber o outro configura-se, ao mesmo tempo, como desafio e horizonte na construção de relações que promovem saúde mental.
Para além de sermos percebidos, necessitamos de espaços de acolhimento emocional, em que nossas emoções possam ser validadas, mesmo quando parecem não fazer sentido. A Psicologia, especialmente a partir do manejo emocional, nos ensina que nem tudo o que sentimos corresponde objetivamente à realidade, mas, ainda assim, as emoções cumprem uma função legítima: comunicar necessidades. Nesse sentido, encontrar alguém emocionalmente letrado, capaz de acolher, nomear e ajudar a compreender essas experiências internas, favorece processos mais saudáveis de elaboração e regulação emocional.
Por fim, o desenvolvimento humano também requer a presença de um outro que nos devolva a nós mesmos. Nas relações em que podemos ser quem somos, sem a necessidade de performar ou nos adaptar excessivamente, encontramos um espaço de segurança e integração. São experiências em que podemos reconhecer nossas emoções sem nos confundirmos com elas, fortalecendo a percepção de nós mesmos como sujeitos inteiros. Relações assim são, em essência, relações de cuidado.
No Colégio Anchieta, esse cuidado é assumido como compromisso institucional e vivido de forma coletiva. O setor de Orientação Educacional, composto por psicólogas que atuam desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, trabalha para que o saber psicológico circule entre os diferentes segmentos, promovendo espaços de escuta, reflexão e desenvolvimento. Em diálogo com educadores, estudantes e famílias, buscamos construir uma cultura em que o cuidado não seja uma ação isolada, mas uma experiência compartilhada no cotidiano escolar.
Enquanto Rede Jesuíta de Educação, reafirmamos nosso compromisso com a formação integral, favorecendo experiências que promovam o cuidado consigo, com o outro e com o mundo. Que aquilo que é vivido no Colégio Anchieta, que celebra 140 anos de história em Nova Friburgo, possa ultrapassar seus muros e ecoar nos diversos caminhos que nossos estudantes irão percorrer.
Porque, no fim, são as relações de cuidado que sustentam quem nos tornamos.
Por Profª Hellena Jacone, Orientadora Educacional do Ensino Médio












