O legado do Colégio Anchieta: quando uma escola se torna fonte de coragem educadora (Junho/2025)
As manhãs frias de Nova Friburgo traziam neblina sobre os jardins do Anchieta. Nas salas de aula, minha cabeça fervilhava de ideias, tensões e angústias. Sob a orientação dos padres jesuítas e dos professores de Matemática, Física, Química e Português — entre tantas outras disciplinas —, aprendi que equações, ácidos e literatura podiam coexistir harmoniosamente. Foi ali, entre livros didáticos e obras literárias, que entendi o valor do estudo e das aulas não como opressão, mas como alicerce para a liberdade intelectual, que impulsionou minha formação acadêmica e que continuo exercendo como professor na Faculdade de Educação da UERJ.
Hoje, quando vejo meus filhos Theo e Nina levantarem perguntas, esboçarem ideias e lidarem com tensões que também me atravessaram no ensino médio, percebo que o Colégio Anchieta não me deu apenas um diploma; deu-me um impulso vital para compreender e transformar o mundo. Deu-me o alicerce invisível de uma herança formativa que não cabe em certificados, mas se prolonga em modos de pensar, sentir, conviver e interferir no mundo.
Aquilo que aprendi — entre aulas, provas e tensões existenciais da adolescência, entre estudo solitário e silêncio angustiado — tornou-se um gesto de continuidade crítica: uma base ética, intelectual e sensível para resistir à naturalização do conformismo nas telas digitais. É nesse gesto que se sustenta meu engajamento na formação universitária de professores, na Licenciatura voltada à docência para a escola básica e à didática interativa em salas de aula presenciais e online.
Episódios de construção da coragem para enfrentar a vida
Destaco quatro episódios marcantes na construção da minha autoconfiança. O primeiro foi participar de um concurso de poesia e ficar em terceiro lugar. Ganhei uma medalha com o poema que dizia:
Nasci e o rio corria para o mar.
Chorei e o rio corria para o mar.
Cantei e o rio corria para o mar.
Morri e o rio corria para o mar.
Eh… o jeito é nascer novamente.
Quem sabe, na nova trajetória de vida,
o rio corre para a nascente.
Esse poema foi lido no palco do grandioso teatro do Colégio, lotado de estudantes, professores e familiares, por uma aluna cuja eloquência, simpatia e inteligência eu admirava e, confesso, até invejava. Foi um momento especial de construção de autoconfiança e autovalorização. Nunca me pareceu tão claro que o reconhecimento coletivo é extremamente relevante para um adolescente tímido, que se escondia pelos cantos das salas e corredores de madeira e querosene.
O segundo episódio ocorreu na aula do professor Vicente Paim, no primeiro ano do ensino médio. Ele me perguntou: “Marco, o que é o homem?” Respondi com algo que, por acaso, havia lido dias antes: “Segundo Platão, o homem é um bípede depenado.” O resultado foi ganhar o apelido de filósofo. O professor Hamilton soube do episódio e passou a me chamar assim até o terceiro ano. No entanto, não esqueço a indignação de uma colega que sentava à minha frente: “Não gostei disso!” Fiquei mudo, sem segurança para contra-argumentar, mas notei que ganhara um pouco mais de autoconfiança por ter impressionado o professor e alguns colegas. Foi um raro momento de sair da invisibilidade.
O terceiro episódio aconteceu em uma aula do professor Cícero Monerat. Ele criou uma dinâmica de comunicação em que cada aluno podia apresentar o que quisesse à turma. Escolhi contar histórias sobre Beethoven, com trechos de Für Elise, Sonata ao Luar e o “Tá-tá-tá-TÁ” da 5ª Sinfonia como fundo musical. Foi mais um passo na construção da autoestima de um “perna de pau” no futebol e pouco interessante para as colegas. Lembro-me de algumas chorando com minha entonação dramática ao descrever o sofrimento e a genialidade do compositor, cujo nome revelei apenas no final: “…e Beethoven morreu!”
O quarto episódio foi no futebol. Como “perna de pau”, era sempre o goleiro. Certa vez, enfrentei um pênalti terrível. O cobrador era conhecido pelo chute mais violento do colégio. Ele recuou, correu e, quando chutou, eu fugi. Para alguns, fui covarde; para mim, foi instinto de sobrevivência. Ainda que decepcionante, agradeço por aquela “sábia covardia”, que me ensinou a autonomia diante das expectativas alheias. Graças a ela, estou vivo para escrever estas linhas, a convite do padre reitor Toninho Monerat, para o Anchieta News.
Educação como herança que mobiliza para mais educação
O Anchieta foi mais que uma escola; foi um viveiro de humanidade e pensamento crítico. Aprendi que a educação não se limita às salas de aula, mas ecoa na construção de famílias, carreiras e sociedades. Ao ver meus filhos e alunos replicarem inquietações que um dia me moveram, entendo que a herança do Anchieta é como o rio do meu poema: corre para o mar, mas também retorna à nascente, em ciclos de renovação.
No terceiro ano, a angústia da escolha profissional entre Biologia e Sociologia foi amenizada pela orientação do Pe. Lino Carrera e do coordenador Vicente Paim. Optei pela Sociologia, motivado pela convivência naquele laboratório social que era o colégio. Observava os agrupamentos, os interesses diversos e as relações entre alunos “notáveis” e “invisíveis” — categoria em que me incluía. Aquela experiência levou-me às Ciências Sociais na UFRJ, no turbulento final da ditadura.
Na graduação, descobri a articulação entre Sociologia e Educação, tema de Durkheim em Educação e Sociologia. Fiz mestrado em Educação na FGV e doutorado na USP, estudando conceitos como “pós-modernidade” e “interatividade”. As raízes dessa inquietação estão no Anchieta. De lá, trouxe para a universidade a busca por superar a docência monológica, abraçando a dialogia de Paulo Freire na cultura digital e no ensino híbrido. Escrevi livros e artigos que me tornaram referência na área — conquista devida a todas as influências que moldaram minha trajetória.
Primeiro, aos meus pais, que, com poucos estudos e muita luta, me ensinaram: “Estude para ser alguém e ajudar os outros.” Depois, ao Anchieta, onde vivi episódios decisivos e recebi orientações que me deram coragem para a vida adulta. E hoje, encontro na parceria com minha esposa, Edméa Santos, pedagoga da UFRRJ, uma sintonia na luta por uma educação transformadora.
Um chamado perene à inquietação e à luta
Como as águas do rio do meu poema — que correm para o mar, mas retornam à nascente —, a herança do Anchieta nunca se esgota. Está nas perguntas dos meus filhos, nas inquietações dos meus alunos, nos livros que escrevi e até naquela “sábia covardia”. As memórias do Anchieta não são só ecos do passado; são notas de uma sinfonia que ressoa em cada aula, cada gesto, cada abraço.
A neblina de Nova Friburgo, que antes escondia o horizonte, passou a revelar um panorama de possibilidades, onde a educação é meio e fim. O Anchieta não me deu respostas prontas — deu-me a sede eterna de perguntar. É nesse rio de inquietação que navego, levando adiante, com gratidão, o mesmo impulso que um dia me fez ver equações, poesia e pênaltis perdidos como degraus do mesmo caminho: o da humanidade que se reinventa, sempre.
É um chamado à luta, à autonomia e ao pensamento crítico. Que o conhecimento corra para o vasto mar da formação humana, mas também retorne à nascente, nutrindo-se da curiosidade, da ética e da coragem de educar e transformar.
Por Marco Silva, Educador, Pesquisador, Escritor e Antigo Aluno












