Quando algoritmos moldam o olhar: discernimento digital na formação de crianças e adolescentes. (Maio/2026)
Vivemos um tempo em que a presença digital se inicia cada vez mais cedo. Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, 93% das crianças entre 9 e 13 anos já possuem perfil em redes sociais. Ao mesmo tempo, dados da ChildFund Brasil indicam que cerca de 20% dos jovens já tiveram contato com desconhecidos na internet. Diante de riscos já amplamente conhecidos — como cyberbullying, exposição indevida e violações de privacidade —, este artigo propõe uma reflexão mais sutil, mas igualmente urgente, à luz de uma educação que busca formar o ser humano em sua integralidade.
Dois fenômenos merecem atenção especial: a chamada “ditadura do algoritmo” e o processo de adultização.
As plataformas digitais utilizam múltiplas inteligências artificiais para recomendar conteúdos com base no interesse do usuário. À primeira vista, parece algo inofensivo — afinal, o que vemos reflete o que já buscamos. No entanto, aqui reside um ponto de discernimento. Quando crianças e adolescentes passam a consumir conteúdos cada vez mais filtrados, há o risco de silenciamento do contraditório e empobrecimento da pluralidade. Forma-se, assim, uma espécie de “bolha” que pode intensificar visões únicas, transformar interesses em obsessões e, em casos extremos, conduzir a comportamentos de risco.
Dados da SaferNet apontam um crescimento expressivo — mais de 175% — em denúncias relacionadas à apologia à violência contra a vida. Esse cenário nos interpela a um cuidado mais atento: que conteúdos estão formando o olhar e o coração de nossas crianças?
Outro fenômeno que exige reflexão é a adultização. Muitas vezes associada apenas à sexualização precoce, ela vai além. Trata-se da exposição antecipada a padrões, responsabilidades e comportamentos próprios da vida adulta. Nas redes sociais, cresce uma cultura de autocuidado estético, performance e comparação, que impacta diretamente a construção da identidade de crianças e adolescentes.
Meninas e meninos passam a internalizar padrões irreais de beleza, sucesso e comportamento, distantes de sua etapa de desenvolvimento. Nesse processo, corre-se o risco de substituir a leveza própria da infância por cobranças precoces — abafando o tempo do brincar, do experimentar, do errar e do crescer com liberdade.
À luz da Pedagogia Inaciana, somos convidados a acompanhar, discernir e cuidar. Educar é ajudar a encontrar sentido, reconhecer movimentos internos e fazer escolhas mais conscientes e livres. Isso também se aplica ao ambiente digital: formar para o uso crítico, equilibrado e humano da tecnologia é parte do nosso compromisso com a formação integral.
Encerramos com uma provocação que nos convida ao exame: que espelhos oferecemos às nossas crianças? Que referências estão moldando sua visão de mundo e de si mesmas?
Como bem expressa o psicólogo Douglas Coutinho:
“Quando a infância se olha no espelho do algoritmo, ela envelhece mais rápido.”
Por Ludmila Schelk, Setor de Comunicação do Colégio Anchieta












