Ser cidadão: a prática da cidadania com os pequenos (Outubro/2026)
Trabalhar a consciência e a prática da cidadania com as crianças vai além do uso dos materiais didáticos. São momentos construídos à base de diálogo, pesquisa, debate, discussões, trocas de experiências, observações e, principalmente, reflexão-ação.
A própria Pedagogia Inaciana e os princípios da Rede Jesuíta, que direcionam nossa prática docente, entendem a cidadania não apenas como um conjunto de deveres e direitos civis e jurídicos, mas como uma prática de transformação social, política e coletiva, em busca de solidariedade e justiça para todos. Nosso exercício diário na construção de um olhar humanista — que acredita em uma educação que forma indivíduos capazes de colocar seus talentos a serviço da sociedade e da Casa Comum — acontece em sala de aula e em todos os espaços ocupados por esses pequenos cidadãos que representam o futuro.
Assim, abordar o tema cidadania em pleno pleito eleitoral não é uma questão de fomentar disputas pessoais entre o lado A e o lado B. É apresentar uma dimensão da vida política que está presente em nosso território desde o período da colonização do país. É fazê-los ouvir, observar e perceber propostas, analisar pontos positivos e negativos, pensar sobre ideias possíveis de serem colocadas em prática de forma justa para diferentes grupos sociais e perceber que, atualmente, somos frutos de diferentes regimes políticos e governos que constituem a história brasileira. É fazê-los entender que somos cidadãos desde o nosso nascimento e que podemos opinar, debater, cobrar e manter viva a esperança em um mundo melhor, onde o bem, a paz e a justiça precisam prevalecer.
Cada encontro, cada pergunta, cada descoberta, cada vídeo assistido e cada conversa direcionam o nosso trabalho e colocam o discente como protagonista do seu próprio conhecimento. E, particularmente, é gratificante vivenciar a evolução crítico-reflexiva de cada um, bem como o amadurecimento enquanto cidadãos que percebem os resultados de suas ações para o coletivo e para os espaços que ocupam.
Sendo assim, o trabalho que desenvolvemos os leva a participar, com engajamento, de projetos, saídas pedagógicas e diferentes experiências, vivenciando relações pessoais em situações e ambientes diversos do dia a dia, acompanhados por profissionais que atuam na formação integral de cada um, unindo mente, coração e ação.
Nossa proposta é fazê-los desenvolver o sentimento de pertencimento aos grupos sociais dos quais participam, saber o que é ser cidadão, quais práticas sociais lhes cabem diante da sociedade e dos grupos aos quais pertencem, o que podem fazer pelo próximo e pela Casa Comum, com consciência das reais necessidades e possibilidades para o bem de todos. É também levá-los a reconhecer seus direitos e deveres, conhecer leis que amparam crianças, mulheres, trabalhadores, idosos e pessoas com deficiência, participar de ações que atendam aos que vivem em situação de vulnerabilidade social, pensar no futuro coletivo do país e entender que podem mudar o mundo começando pelo próprio lar e pela escola, com pequenos gestos e atitudes.
Dessa forma, cidadania é mais do que uma palavra, um tema de aula, um projeto ou um assunto importante para determinados componentes curriculares. É uma pauta que deve ser construída desde os primeiros anos de vida. Só conhecendo o espaço que ocupa e vivenciando relações interpessoais é que a criança se vê como atuante em uma sociedade que lhe garante direitos, mas que também lhe apresenta deveres, responsabilidades e oportunidades de participação. E é nessa convivência que aprende a ouvir, dialogar, respeitar as diferenças, fazer escolhas e perceber que cada ação pode colaborar ou não para a construção de uma sociedade democrática e solidária.
Ou seja, é sair dos livros para a ação, da simples crítica para ir além do já esperado e vivido. É assumir o papel de um cidadão consciente, compassivo, criativo e comprometido com a ética e os valores que devem nortear a vida de uma pessoa que realmente se preocupa consigo e com os demais. Por isso, nossa preocupação, enquanto docentes da rede, é sermos pontes para a formação de cidadãos reflexivos que poderão atuar na construção de uma sociedade coerente e igualitária, reconhecendo que as pessoas têm necessidades diferentes e que cabe aos nossos governantes oferecer oportunidades justas de participação para todos.
Por Inahiara Venancio, professora de História e Geografia.












