Uma resposta da Pedagogia Inaciana à Sociedade do Cansaço: o uso dos smartphones em sala de aula (Setembro/2025)
Vivemos um tempo em que a escola precisa, mais do que nunca, se reinventar diante dos desafios contemporâneos. O excesso de estímulos, o ritmo acelerado, a pressão por desempenho constante e o uso indiscriminado de dispositivos eletrônicos vêm moldando uma nova configuração da vida estudantil. É nesse cenário que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han nos alerta sobre a “Sociedade do Cansaço” — uma realidade marcada por hiperprodutividade, esgotamento emocional, perda de concentração e dificuldades em construir experiências significativas.
O Colégio Anchieta de Nova Friburgo tem buscado caminhos concretos para resistir a essa lógica. Um marco importante foi a adequação à Lei 15.100/25, que regula o uso de aparelhos eletrônicos portáteis em instituições de ensino. Desde o início de 2025, a escola implantou medidas claras para restringir o uso de smartphones, permitindo sua utilização apenas em contextos pedagógicos e com acompanhamento dos educadores. Mais do que normas, essa decisão reflete um compromisso com o bem-estar dos estudantes, com sua saúde mental e com a qualidade das relações humanas dentro do ambiente escolar.
Contudo, a proposta vai além da simples proibição de dispositivos. Trata-se de propor uma nova forma de viver a escola, e é nesse ponto que a Pedagogia Inaciana se apresenta como uma resposta potente. Inspirada nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, essa pedagogia parte da tríade experiência-reflexão-ação, buscando formar o ser humano em sua totalidade: corpo, mente, afetos, consciência e espiritualidade. O objetivo é educar para além do conteúdo, formando pessoas com sentido, profundidade e propósito.
Enquanto a sociedade atual empurra os sujeitos para o desempenho contínuo, transformando-os em “exploradores de si mesmos” — competitivos, ansiosos e hiperconectados —, a Pedagogia Inaciana convida à contemplação, à escuta interior e à pausa reflexiva. Em vez do acúmulo frenético de informações, valoriza-se o conhecimento vivido e experienciado. No lugar da multitarefa e da superficialidade, busca-se foco, presença e interioridade. O silêncio, o discernimento e a escuta se tornam fundamentos de um verdadeiro processo educativo.
Conceitos como o Magis representam uma excelência que não se mede por números ou resultados, mas pela capacidade de ir além de si mesmo em direção ao outro. É uma excelência humana, que forma jovens conscientes, competentes, compassivos e comprometidos. Já a Cura Personalis lembra que cada estudante é único e deve ser acompanhado em seu ritmo, com atenção real às suas necessidades, limites e potencialidades — contrapondo-se à lógica padronizante da Sociedade do Cansaço, que trata indivíduos como meros dados.
Outro conceito relevante é o da Inovação Crítica. Ao contrário da busca frenética por novidades tecnológicas — muitas vezes desprovidas de sentido —, a inovação, na perspectiva inaciana, serve à justiça social, à inclusão e à transformação. Ela não se limita à inserção de tecnologias, mas propõe reestruturar relações, repensar vínculos entre professores e alunos e cultivar espaços humanos, colaborativos e significativos.
Ao limitar o uso dos smartphones e criar novas formas de mediação com a tecnologia, o Colégio Anchieta não está apenas cumprindo uma norma legal. Está se posicionando diante de um modelo de sociedade que adoece seus jovens, oferecendo uma educação que cura, integra e transforma. O fortalecimento das relações interpessoais, da escuta ativa e da abertura ao outro são frutos visíveis desse processo.
A Sociedade do Cansaço cria sujeitos hiperconectados, competitivos e esgotados. A Pedagogia Inaciana propõe sujeitos conscientes, abertos ao mundo, capazes de amar e servir, dispostos a construir com os outros uma realidade mais justa e humana. Esse é o compromisso do Colégio Anchieta: não apenas transmitir conteúdos, mas formar pessoas inteiras, capazes de resistir às pressões de um mundo fragmentado e de responder com generosidade, liberdade e discernimento.
Por Matheus Barradas, Professor de História e Coordenador de Humanas












