Aprender a lidar com a frustração: um cuidado que fortalece crianças e adolescentes (Julho/2026)
Vivemos em uma sociedade que valoriza a rapidez, a eficiência e a satisfação imediata. Basta alguns cliques para encontrar respostas, fazer compras ou acessar entretenimento. Nesse contexto, é natural que também desejemos poupar crianças e adolescentes de experiências difíceis. Afinal, quem gosta de ver um filho triste, decepcionado ou frustrado?
Entretanto, embora essa proteção seja movida pelo afeto, é importante refletirmos sobre um aspecto essencial do desenvolvimento humano: nem toda frustração faz mal. Pelo contrário, quando vivida em um ambiente seguro, permeado por acolhimento, diálogo e presença, ela pode favorecer importantes aprendizagens emocionais.
Desde cedo, a vida apresenta limites. Nem sempre é possível ganhar um jogo, conquistar o que se deseja ou fazer parte de determinado grupo. Na adolescência, essas experiências costumam ganhar ainda mais intensidade. Somam-se a elas as mudanças próprias dessa etapa da vida, a construção da identidade, os conflitos nas amizades, as primeiras decepções afetivas e a pressão por corresponder às expectativas dos outros e de si mesmo.
As redes sociais ampliam esse desafio. Ao se depararem diariamente com versões idealizadas da vida alheia, muitos adolescentes passam a acreditar que apenas eles enfrentam dificuldades, enquanto todos os demais parecem felizes, populares e bem-sucedidos. Essa comparação constante pode tornar as frustrações ainda mais dolorosas e alimentar sentimentos de inadequação e insuficiência.
A Psicanálise nos ajuda a compreender que crescer também significa aprender a conviver com os limites. O ser humano se constitui ao perceber que nem todos os seus desejos poderão ser realizados da maneira ou no tempo que gostaria. É nesse processo que desenvolvemos recursos importantes, como a capacidade de esperar, elaborar perdas, flexibilizar expectativas e encontrar novos caminhos diante das dificuldades.
Isso não significa expor crianças e adolescentes ao sofrimento de forma desnecessária. Significa compreender que cuidar não é eliminar todos os obstáculos do caminho, mas permanecer ao lado deles enquanto aprendem a atravessá-los. A presença acolhedora dos adultos oferece segurança para que experiências difíceis possam ser compreendidas e transformadas em crescimento.
Essa compreensão dialoga profundamente com a proposta da Formação Integral da Educação Jesuítica. Educar vai além da transmissão de conhecimentos: é favorecer o desenvolvimento de pessoas capazes de conhecer a si mesmas, relacionar-se com os outros de forma respeitosa e agir com responsabilidade diante da vida. Nesse percurso, o discernimento, tão presente na identidade inaciana, torna-se uma ferramenta fundamental para ajudar crianças e adolescentes a reconhecerem seus sentimentos, refletirem sobre suas escolhas e responderem aos desafios com maior consciência e liberdade.
Talvez uma das maiores formas de cuidado que possamos oferecer às novas gerações seja justamente esta: estar presentes, escutar, acolher e confiar que, acompanhados por adultos que oferecem amor, limites e esperança, nossos filhos e estudantes descobrirão que nem todo “não” representa um fracasso. Muitas vezes, é justamente a partir dessas pequenas frustrações que se constroem a autonomia, a resiliência e a capacidade de enfrentar a vida com equilíbrio, humanidade e esperança.
Por Karen de Castro, Psicóloga Escolar e Orientadora Educacional do Ensino Fundamental II












