Entre ensinar e aprender, o desafio de cuidar (Agosto/2026)
Ao longo dos anos trabalhando na educação, tenho aprendido que a escola é feita muito mais de pessoas do que de paredes, horários e conteúdo. Todos os dias, ao caminhar pelos corredores, entrar nas salas de aula ou conversar com professores, estudantes, famílias e colaboradores, percebo que cada pessoa carrega consigo histórias, desafios, alegrias, expectativas e sonhos. Talvez por isso eu acredite que, entre ensinar e aprender, exista uma tarefa essencial que nem sempre aparece nos planejamentos ou nas avaliações, mas que sustenta tudo o que fazemos: o cuidado.
Quando pensamos em saúde, geralmente nos lembramos dos cuidados com o corpo, da alimentação adequada, da atividade física e do descanso. Tudo isso é fundamental. Mas, no dia a dia da escola, tenho percebido o quanto a saúde emocional também precisa ocupar um lugar de destaque. Afinal, convivemos diariamente com pessoas que enfrentam inseguranças, medos, frustrações, mudanças e desafios próprios de cada fase da vida. Muitas vezes, um olhar atento, uma conversa acolhedora ou uma escuta verdadeira fazem mais diferença do que imaginamos.
A escola é um espaço de aprendizagem, mas também de encontros. É nela que crianças e adolescentes aprendem a conviver, a lidar com conflitos, a descobrir seus talentos e a construir sua identidade. Da mesma forma, educadores vivem diariamente o desafio de ensinar, orientar e acompanhar trajetórias tão diferentes. Por isso, acredito que o cuidado está presente em cada relação que construímos. Ele aparece quando um estudante se sente seguro para pedir ajuda, quando um professor encontra apoio em momentos difíceis ou quando uma família percebe que não está sozinha em seu processo educativo.
Vivemos em uma sociedade marcada pela velocidade, pelo excesso de informações e pela sensação constante de que precisamos dar conta de tudo. Nesse contexto, cuidar de si mesmo tornou-se um desafio. Muitas vezes, somos tão dedicados ao cuidado dos outros que nos esquecemos das nossas próprias necessidades. Aprender a reconhecer limites, reservar momentos de pausa, cultivar relações saudáveis e valorizar aquilo que nos faz bem não é sinal de fraqueza. Pelo contrário: é um ato de responsabilidade consigo mesmo e com aqueles que caminham ao nosso lado.
Na minha atuação como assessora pedagógica, acompanho diariamente situações que reforçam essa convicção. Percebo que o aprendizado acontece de forma mais significativa quando as pessoas se sentem acolhidas, respeitadas e valorizadas. Ninguém cresce sozinho. Ninguém aprende sozinho. O desenvolvimento humano acontece nas relações, na confiança construída ao longo do tempo e na certeza de que existe alguém disposto a caminhar junto.
A tradição educativa inaciana nos oferece uma inspiração preciosa por meio da cura personalis, expressão que nos convida a cuidar da pessoa em sua integralidade. Somos mais do que resultados, notas ou metas alcançadas. Somos seres humanos em constante construção, com dimensões intelectuais, emocionais, sociais, éticas e espirituais que precisam ser desenvolvidas de forma harmoniosa. É essa visão que sustenta a proposta educativa de nossas escolas e que orienta nosso compromisso com a formação integral.
Também acredito que o cuidado se manifesta, sobretudo, nas pequenas atitudes do cotidiano. Em um cumprimento sincero, em uma palavra de incentivo, em um gesto de paciência, em uma escuta sem julgamentos ou em uma presença que transmite segurança. São essas experiências que fortalecem os vínculos e ajudam a construir ambientes mais humanos, acolhedores e fraternos.
Santo Inácio de Loyola nos convida a “amar e servir em tudo”. Esse chamado continua profundamente atual para todos nós que vivemos a missão educativa. Afinal, quem se sente cuidado encontra mais forças para cuidar; quem encontra acolhida aprende a acolher; e quem experimenta relações verdadeiramente humanas torna-se mais capaz de transformar o mundo ao seu redor.
Talvez o maior legado de uma escola não esteja apenas no que ela ensina, mas nas pessoas que ajuda a formar. Entre ensinar e aprender, descobrimos que o cuidado é o que dá sentido à educação, pois é dele que nasce uma formação verdadeiramente humana, capaz de transformar vidas e inspirar cada pessoa a amar e servir.
Por Simone Pereira, Assessora Pedagógica do Ensino Fundamental I












