Cuidar da Casa Comum: uma necessária conversão ecológica (Setembro/2026)
Setembro é o mês da Bíblia! Mas também marca o início do Tempo da Criação. O profeta Ezequiel nos apresenta uma imagem muito bonita: do Templo nasce um rio que vai crescendo e, por onde passa, faz a vida florescer. As águas chegam a lugares antes sem vida e transformam tudo ao seu redor. Surgem árvores, frutos e cura. É uma imagem que nos ajuda a compreender a ação de Deus: aonde Sua presença chega, a vida encontra espaço para nascer novamente.
O Tempo da Criação 2026 nos convida a entrar nessa dinâmica e a fazer uma experiência de “Água Viva”. Mas talvez a pergunta não seja apenas se estamos dispostos a receber essa água. É preciso perguntar também: o que acontece quando a Água Viva de Deus passa pela nossa vida?
A água não permanece parada. Ela corre, encontra caminhos e alcança os interiores mais profundos. Talvez seja esse também o movimento que Deus espera de nós: aquilo que recebemos não deve ficar somente em nós. Não somos chamados a ser cisternas, mas rios!
O cuidado, a esperança, a fraternidade e a vida que experimentamos precisam chegar também às pessoas e à criação que estão ao nosso redor. Quando olhamos para a realidade à nossa volta, percebemos que nem todos têm acesso àquilo que é essencial para a vida. Existem pessoas que sofrem com a falta de água, com a pobreza, com a desigualdade e com a destruição do ambiente em que vivem. A criação também carrega suas feridas: rios são contaminados, florestas são destruídas e tantas formas de vida desaparecem. Diante disso, não podemos permanecer indiferentes.
A Laudato Si’ nos recorda que tudo está interligado e enfatiza que cuidar da Casa Comum é também cuidar das pessoas. A natureza e a vida humana não são realidades distintas entre si; desse modo, quando ferimos a criação, também ferimos aqueles que dependem dela para viver, especialmente os mais vulneráveis. Relacionar esse tema com a Fratelli Tutti nos ajuda a compreender que esse cuidado passa pela fraternidade: não vivemos sozinhos. Nossas decisões, assim como as omissões, não são inócuas e sempre alcançam outras pessoas e o ambiente em que vivem.
O tema do Tempo da Criação, deste ano, nos exorta a compreender que esse cuidado não pode nascer apenas de uma regra ou de uma obrigação que vem de fora. Não devemos cuidar da criação simplesmente porque alguém nos disse que é importante cuidar. Existe um convite mais profundo no simbolismo da Água Viva que nos inunda, fazendo-nos também fontes de Água Viva: a necessidade de mudança dentro de nós. Uma metanoia, mudança de coração, de pensamento e de direção, que nos faça olhar para a realidade por um novo prisma. Para que compreendamos que a criação é dom de Deus e que fazemos parte dela. Assim, o cuidado deixa de ser apenas uma exigência e passa a ser uma resposta. Não cuidamos da Casa Comum somente porque precisamos, mas porque aprendemos a amá-la e a reconhecer, nela, a presença de Deus, como Santo Inácio sempre ensinou: “ver Deus em todas as coisas”.
Essa “Água Viva” também nos ajuda a olhar para dentro: de que tenho sede? O que precisa ser renovado em mim? O que, dentro de mim, precisa ser regado novamente? Onde, em nós, existem lugares que também precisam da água de Deus: relações que precisam de cuidado, atitudes que precisam ser repensadas e transformadas, esperanças que necessitam ser regeneradas? Essa transformação interior também muda nossa relação com o mundo. Quando muda o nosso olhar, mudam nossas escolhas. Quando percebemos que não somos donos da criação, mas parte dela, começamos a nos relacionar com a Casa Comum com mais cuidado. A conversão ecológica começa, então, dentro de nós, mas não termina em nós.
A espiritualidade inaciana nos convida justamente a esse movimento: contemplar a realidade, deixar-nos tocar por ela, discernir e buscar uma resposta concreta. Não basta perceber a beleza da criação ou reconhecer suas feridas. A Água Viva de Deus não chega até nós para ficar represada. Ela nos atravessa para que também possamos ser fonte de vida. É preciso perguntar: diante de tudo isso, o que Deus me chama a fazer?
Por Fernanda Chabudt, Agende de Pastoral











