Democracia também se planta (Setembro/2026)

24/09/2026

Falar de Soluções baseadas na Natureza (SbNs) é falar de árvores, rios, nascentes, jardins de chuva, telhados verdes, hortas comunitárias, áreas verdes e recuperação de ecossistemas. Mas é também falar de pessoas. Talvez esse seja o ponto de partida mais importante: não existe possibilidade de cuidar da natureza sem pensar nas relações humanas que acontecem nos territórios. Da mesma forma, não podemos discutir cidades sustentáveis sem perguntar quem tem direito à sombra de uma árvore, à água limpa, ao ar menos poluído, a uma praça, a um rio vivo ou simplesmente contemplar a natureza no lugar onde vive. 

Durante muito tempo aprendemos a pensar a cidade como oposição à natureza. De um lado, o concreto, as ruas, os carros e aquilo que chamamos de desenvolvimento e do outro, florestas, rios, seres vivos e tudo aquilo que nessa concepção deveria permanecer distante do espaço urbano. Essa separação é um tanto preocupante, pois ela nos fez esquecer que também somos natureza. 

É justamente esse distanciamento que Ailton Krenak questiona em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo. Krenak (2019) provoca nossa maneira de compreender a humanidade ao questionar a ideia de que estamos separados da Terra, como se pudéssemos existir independentemente dos rios, das montanhas, das florestas e das demais formas de vida. Sua reflexão nos convida a recuperar o sentimento de pertencimento. Não estamos sobre a Terra apenas ocupando um espaço. Somos parte dela. Talvez pensar as Soluções baseadas na Natureza exija exatamente essa mudança de olhar. Não se trata apenas de trazer árvores novamente para as cidades ou recuperar rios que um dia foram canalizados. Trata-se de reconstruir relações. Uma árvore plantada em uma comunidade não oferece somente sombra ou captura de carbono. Ela pode criar um lugar de encontro. Uma horta na escola ou na comunidade não produz apenas alimentos. Produz vínculos, conhecimentos, memórias e pertencimento. Uma nascente recuperada não representa somente um serviço ao ecossistema. Representa a possibilidade de uma comunidade voltar a reconhecer a água como parte de sua própria história. 

Nesse sentido, encontramos Leonardo Boff e sua reflexão no livro Saber cuidar. Para Boff (1999), o cuidado não pode ser entendido apenas como uma ação isolada ou ocasional. Ele constitui uma maneira de estar no mundo. Cuidamos daquilo que reconhecemos como significativo e cuidando estabelecemos vínculos. Talvez uma das grandes crises de nosso tempo esteja justamente na perda desses vínculos: com o território, com o outro e com a própria Terra. Trazer o cuidado para o centro das decisões sobre as cidades modifica profundamente a maneira como pensamos o planejamento urbano. Uma cidade que cuida não pode naturalizar que determinados bairros tenham árvores, praças, saneamento e combate as ilhas de calor enquanto outros convivem cotidianamente com enchentes, encostas desprotegidas, ausência de vegetação, descarte inadequado de lixo e calor excessivo. O direito à cidade precisa incluir também o direito a uma natureza digna. 

É nesse ponto que a discussão sobre as SbNs se encontra com a democracia e com a justiça socioambiental. Não basta perguntar quantas árvores uma cidade possui. 

Precisamos perguntar onde essas árvores estão e quem pode desfrutar de sua sombra. Não basta anunciar a recuperação de um rio. É necessário perguntar quem participou dessa decisão, quais comunidades vivem em suas margens e de que maneira seus conhecimentos e suas histórias foram considerados. Quando essas perguntas são feitas, percebemos que sustentabilidade também significa participação. 

Moacir Gadotti amplia ainda mais essa reflexão. Para o autor, educar para um mundo sustentável implica formar sujeitos capazes de compreender as relações entre sociedade, ambiente, cultura e responsabilidade coletiva. Essa perspectiva aproxima sustentabilidade de cidadania planetária, porque nos ajuda a perceber que nossas escolhas locais fazem parte de uma rede muito maior de relações. 

A educação possui um papel fundamental. Precisamos formar crianças e jovens capazes não apenas de conhecer os problemas ambientais, mas de ler o território onde vivem, perceber suas desigualdades, reconhecer suas potencialidades e compreender que também podem participar de sua transformação. Uma horta escolar, uma trilha, um viveiro de mudas, o plantio de árvores, a recuperação de uma nascente ou a observação de um rio podem tornar-se experiências educativas profundamente transformadoras quando deixam de ser atividades pontuais e passam a despertar pertencimento. 

Educar para a sustentabilidade é também educar para o cuidado. É ensinar que o destino de uma folha, de uma gota de água ou de um pequeno grão de solo está conectado ao nosso próprio destino. É compreender que aquilo que fazemos em nosso pequeno território ressoa na Casa Comum. 

Talvez seja justamente nesse encontro entre Krenak, Boff e Gadotti que possamos compreender a dimensão mais profunda das Soluções baseadas na Natureza. Krenak nos provoca a recuperar o pertencimento, Boff nos convida ao cuidado e Gadotti nos aponta a educação como possibilidade de transformação. Três visões que apontam para uma mesma necessidade que é reconstruir nossa relação com a Terra e uns com os outros. 

Uma cidade verdadeiramente sustentável não será aquela que apenas acumular projetos verdes ou indicadores ambientais positivos. Será aquela capaz de transformar seus territórios em espaços de vida, convivência, participação e cuidado. Uma cidade onde rios possam novamente ser reconhecidos como rios, onde árvores façam parte do cotidiano, onde hortas aproximem pessoas e onde crianças possam crescer compreendendo que natureza não é algo distante que visitamos ocasionalmente. 

Em tempos de emergência climática, talvez nossa tarefa seja também recuperar a capacidade de imaginar outros futuros. Krenak nos convida a não desistir de contar histórias e de sonhar outros mundos possíveis. Boff nos recorda que esses mundos precisam nascer do cuidado e Gadotti nos ajuda a compreender que a educação pode transformar esses sonhos em consciência, participação e compromisso. 

As Soluções baseadas na Natureza podem fazer parte desse caminho, desde que não sejam apenas soluções para os territórios, mas construídas com os territórios. Que reconheçam os conhecimentos das comunidades, promovam participação e contribuam para diminuir desigualdades. Talvez adiar o fim do mundo comece 

justamente assim: recuperando um rio, protegendo uma nascente, plantando uma árvore, cultivando uma horta, educando uma criança para o cuidado e garantindo que todos tenham o direito de encontrar a natureza no lugar onde vivem. 

Pequenos gestos? Talvez. Mas são também formas de reconstruir pertencimentos, fortalecer comunidades e lembrar que ainda somos capazes de cuidar da Casa Comum. Juntos. Sendo mais com os demais. 

Por Elaine Guaralde, Professora e Coordenadora de Ecologia Integral

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