Entre Babel e Jerusalém: Inteligência Artificial, Poder e Dignidade Humana na Encíclica Magnifica Humanitas (Maio/2026)

28/05/2026

Escrita no dia 15 de maio deste ano, mas anunciada oficialmente no dia 25 do mesmo mês, a primeira encíclica do Papa Leão XIV foi lançada. Muito aguardada não só pelos fiéis católicos, mas também por todos aqueles de boa vontade, esta encíclica apresenta-se como uma possível chave de interpretação e intervenção em nosso mundo marcado pela rapidez das inovações tecnológicas. Este artigo tem por objetivo uma breve análise da carta apostólica em três eixos fundamentais: a inteligência artificial, o poder e a dignidade humana.

A Doutrina Social da Igreja é um conjunto de princípios e reflexões que a Igreja Católica desenvolveu desde 1891, com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, para pensar a vida em sociedade à luz do Evangelho. Esses pensamentos e princípios guiam os fiéis católicos e os homens de boa vontade a tomar decisões políticas, sociais e culturais de forma a garantir a dignidade humana. Por dignidade humana, entende-se o valor próprio, absoluto e inalienável que cada pessoa possui simplesmente por ser humana. Como a técnica se propagou com muita rapidez no século XIX, a Igreja Católica inseriu-se nos debates e movimentos mundiais que refletiam e agiam sobre as relações entre técnica, capital e trabalho¹.

Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV reforça a posição da Igreja de que a técnica é um elemento neutro, desenvolvido pelo ser humano para facilitar cada vez mais a própria vida e a dos demais. Porém, entende que, do desenvolvimento técnico, surgiu o paradigma da tecnocracia, que insere todas as relações humanas na lógica da eficiência, do lucro e do domínio, transformando as pessoas em meros instrumentos de produção, como engrenagens de um sistema². A encíclica conclama os fiéis e os homens de boa vontade a se oporem a essa visão de mundo, que não respeita a dignidade humana e a coisifica. O grande problema é que a novidade da inteligência artificial pode ser utilizada para tais fins.

O Papa não propõe uma definição ou um tratado sobre inteligência artificial, porque tudo o que é discutido hoje pode tornar-se obsoleto em pouco tempo. Contudo, afirma que ela é uma tecnologia “cultivada”, capaz de armazenar informações e aprender novos dados de forma autônoma. Ele ressalta a necessidade de investigação científica sobre o tema e, sobretudo, de discernimento moral e espiritual. Além disso, enfatiza que a inteligência artificial não deve ser comparada à inteligência humana, porque, por mais que tenha capacidade de execução de dados e cálculos que extrapolam a mente humana,

“…este poder permanece exclusivamente ligado ao tratamento de dados: as ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade. Nem sequer possuem uma consciência moral: não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, não assumem sobre si o peso das consequências.”³

Leão XIV utiliza o verbo “desarmar” para mostrar à humanidade o que devemos fazer com as inteligências artificiais. Esse desarmamento não significa apenas retirar o uso dessa tecnologia para a competição armamentista, mas também para disputas econômicas e cognitivas. Devemos afastá-la desses usos destrutivos e colocá-la a serviço da partilha entre os diferentes povos e culturas da humanidade. Além disso, o Papa destaca que uma relação saudável com a inteligência artificial é também um elemento de ecologia integral, já que ela constitui o ambiente no qual estamos inseridos e o poder com o qual precisamos aprender a lidar⁴.

Por fim, as questões sobre a técnica, a relação entre capital e trabalho, além da aceleração da inteligência artificial, são aspectos de um pano de fundo muito mais antigo: uma antiga encruzilhada diante da qual o livre-arbítrio humano precisa escolher entre duas imagens bíblicas fundamentais — reconstruir a Torre de Babel ou optar pelo renascimento de Israel. A primeira representa uma construção que absolutiza o ser humano em sua pretensão de autossuficiência e sacrifica a pessoa em nome do progresso⁵. A segunda simboliza o renascimento de uma cidade sagrada por meio de várias mãos que cooperam e partilham⁶. Nas palavras de Leão XIV,

“Em última análise, a questão decisiva continua a ser a que indicou São João Paulo II: a IA torna ‘a vida humana sobre a terra, em todos os seus aspectos, mais humana? Torna-a mais digna do homem?’. Se a resposta for ‘sim’, então podemos reconhecer nela uma boa possibilidade a ser vivida com responsabilidade, num caminho de reconstrução paciente e partilhada, segundo o modelo do renascimento de Jerusalém narrado no livro de Neemias. Se, pelo contrário, o poder cresce enquanto o coração seca e os laços se rompem, então estamos diante duma nova forma de Babel: uma construção grandiosa, mas desumana.”⁷

Por Matheus Barradas, Professor de História do Ensino Médio

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