Por que desenvolver o pensamento crítico na infância? (Novembro/2025)
Certa vez, um professor me perguntou qual habilidade as crianças mais carecem atualmente, e eu respondi: pensamento crítico. Ele pediu que eu desenvolvesse minha resposta, porque, “depois que Paulo Freire escreveu sobre criticidade, reflexão e conscientização, a sociedade tomou esses termos de maneira tão maçante e, por vezes, repetitiva, que eles estão perdendo o significado”. Pensando sobre esse diálogo enriquecedor, percebo que realmente é necessário resgatar o sentido e o valor do pensamento crítico na sociedade e, especialmente, na infância.
Dessa forma, entende-se o pensamento crítico como a capacidade de analisar informações, questionar ideias e formar julgamentos de maneira lógica e fundamentada, em contraposição à aceitação passiva de fatos ou opiniões. Assim, trata-se de um movimento reflexivo no qual o sujeito torna-se leitor de mundo, capaz de fazer inferências, criar hipóteses e procurar confirmá-las. Particularmente, compreendo como um processo investigativo de, no espetáculo cotidiano, estar na plateia, ser o ator no palco e entender as movimentações na coxia simultaneamente.
Pode-se, portanto, perguntar: como desenvolver essa habilidade nas crianças? A solução é muito simples: comece incentivando e respondendo aos porquês delas. De acordo com o psicólogo suíço Jean Piaget, a “fase dos porquês” se situa no período pré-operatório do desenvolvimento cognitivo (entre 2 e 7 anos), quando as crianças percebem mais estímulos e recebem mais informações do que conseguem compreender e absorver. Nesse momento, elas procuram pessoas de confiança para acessar as respostas de suas indagações. Sei que essa fase pode ser desafiadora, já que exige responder a milhares de perguntas (muitas vezes sem termos todas as respostas ), mas é dessa forma que a criança relaciona ideias, formula hipóteses e busca meios de comprová-las. Sendo assim, é essencial não reprimir as dúvidas pueris, mas incentivá-las e respondê-las da melhor forma possível.
Por outro lado, compreendo que, numa sociedade tecnológica cada vez mais ansiosa, o movimento de “pensar” tornou-se demasiadamente cansativo, exigente e trabalhoso. Por isso, estamos próximos do que cientistas e educadores chamam de “sedentarismo cognitivo”, quando o cérebro deixa de ser estimulado e entra num estado de passividade, imediatismo e conforto, ao executar mínimos esforços. Com isso, se mal queremos ler as linhas, quem dirá as entrelinhas… E é nesse infeliz cenário que o pensamento crítico precisa ser resgatado.
Em Por uma Pedagogia da Pergunta, Paulo Freire destaca que “A existência humana é, porque se fez perguntando, à raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é a radicalidade do ato de perguntar”. Nessa perspectiva, faz-se urgente retomar o ato de pensar criticamente, fomentar o desenvolvimento dessa habilidade na infância e incentivar que a criança questione — com respeito, carinho e educação — por que não pode ficar acordada até meia-noite, comer doces antes do almoço ou escalar os armários de casa. Incentive os porquês, ensine a como formulá-los, responda-os com os argumentos que julgar corretos e veja nascer a construção da identidade da criança, do pensamento reflexivo e crítico, do diálogo respeitoso e de um cidadão consciente de seus atos e crenças.
Despeço-me dessa conversa respondendo à pergunta do título: é preciso desenvolver o pensamento crítico na infância para transformar nossa realidade e nossa sociedade, pensar enquanto ato de resistência ao sedentarismo cognitivo e jamais silenciar o primeiro movimento que as crianças fazem ao perguntar. Precisamos respondê-las!
Maria Eduarda Venancio da Silva Menezes, Antiga Aluna e Jovem Aprendiz do SOE












