Quando o calendário desacelera: férias, pausa e Cura Personalis (Janeiro/2026)
Há um instante do ano em que a escola inteira parece respirar de um jeito novo. O movimento contínuo dos corredores, os risos que ecoam pelas salas e o vai-e-vem apressado das rotinas diminuem de intensidade, como se tudo soubesse que chegou o momento da pausa. É curioso perceber como, mesmo em silêncio, o Anchieta continua educando. A pausa também ensina — e ensina muito.
As férias não são apenas um intervalo no calendário. São um convite. Um chamado suave para voltarmos o olhar ao essencial: ao que somos, ao que sentimos, ao que nos sustentou ao longo do ano e ao que ainda precisa ser cuidado dentro de nós. Em chave inaciana, é o tempo de ordenar os afetos, de reconhecer os movimentos interiores que atravessaram as experiências vividas e, com ternura, permitir que a alma repouse.
Ao observarmos o percurso que nossas crianças trilharam, percebemos que aprender não é um ato linear. É caminho vivo, feito de avanços, tropeços, descobertas e reorganizações. Cada uma delas chega ao final do ano trazendo consigo um caderno invisível: aquele que guarda suas conquistas, suas curiosidades despertas, suas inseguranças e seus encantamentos. Nas férias, elas finalmente encontram o tempo necessário para folhear esse caderno interno e reorganizar, ao seu modo, o que viveram.
Para as crianças, as férias são terreno fértil para o que a escola, por mais rica que seja, não consegue oferecer o tempo todo: liberdade. Liberdade para brincar sem hora marcada, para acordar sem despertador, para explorar o mundo ao ritmo da curiosidade, para fazer descobertas que não cabem em currículo, mas que moldam a personalidade e a vida interior. É no brincar despretensioso que a imaginação se expande; é no ócio criativo que novos mundos se formam. Ali, elas crescem de outro jeito — silencioso, mas profundo.
Para as famílias, este também é um período de reencontro. É a chance de perceber detalhes que, na correria do ano letivo, muitas vezes passam despercebidos: a forma como os filhos contam uma história, o jeito como organizam um brinquedo, as frases novas que aprenderam, os medos que não foram ditos, os sonhos que começam a se desenhar. As férias devolvem tempo. E tempo, nas relações familiares, é sempre cuidado. É quando pais, mães, avós e responsáveis reconectam-se com a rotina emocional das crianças, reforçando vínculos, fortalecendo a confiança e construindo memórias afetivas que permanecem para além do ano escolar.
E, para nós, educadores, as férias são mais do que descanso. São parte do próprio trabalho. Somos chamados a olhar para trás com honestidade e gratidão: lembrar as manhãs difíceis em que insistimos, os sorrisos que recebemos quando um estudante finalmente avançou, os diálogos que desafiaram nossa escuta, as decisões que exigiram coragem, os abraços espontâneos que encheram de sentido o nosso dia. A pausa é o momento em que reconhecemos a beleza e a complexidade da missão educativa e deixamos que o corpo e a mente se restabeleçam, para que possamos continuar servindo com a inteireza que a educação jesuítica exige — com presença, discernimento e amor.
A Cura Personalis, tão cara à nossa identidade, encontra nas férias um campo privilegiado. Cuidar da pessoa inteira significa entender que o descanso não é luxo, é necessidade. Que o silêncio não é ausência, é preparação. Que a pausa não interrompe a missão, mas a renova. Que, ao cuidarmos de nós — cada um à sua maneira —, voltamos melhores para cuidar dos outros. É no descanso que devolvemos sentido ao movimento.
E, enquanto cada estudante, família e educador vive essa experiência de pausa, o Anchieta também respira. O casarão amarelo descansa. As salas, vazias, guardam memórias e esperam as próximas histórias que serão escritas. Cada espaço da escola parece aguardar, com uma serenidade quase poética, o retorno da vida que só as pessoas trazem. A escola não existe sem gente. E, por isso mesmo, o descanso de cada um é também o descanso da instituição.
Que estas férias sejam, então, vividas com leveza. Que cada família encontre tempo de estar junta. Que cada criança encontre tempo de ser criança. Que cada educador encontre tempo de se recompor, de agradecer, de respirar. E que todos nós encontremos espaço para reconhecer a presença de Deus nas pequenas coisas — no sol da manhã, nas conversas demoradas, nos silêncios reveladores, nos reencontros simples, nos afetos que sustentam a vida.
Quando retornarmos, que voltemos inteiros.
Com o coração aquecido, a mente descansada e o espírito renovado.
Com a coragem de sempre e a ternura de sempre.
E que o casarão amarelo, generoso como é, nos receba de portas abertas, chamando cada um pelo nome — como quem reencontra alguém da própria família.
Por Livia da Silva Moraes, Psicóloga e Pedagoga – Orientadora Educacional.












