Quem cuida de quem cuida? Reflexões sobre saúde mental na educação (Setembro/2025)
O espaço escolar é, antes de tudo, um espaço de encontros. Ali se cruzam professores, alunos, famílias, gestores e todos aqueles que, de algum modo, sustentam a tarefa de educar. No entanto, por trás dessa missão coletiva, há um aspecto frequentemente invisível: o peso de ser aquele que cuida. A questão que proponho, portanto, é direta e inquietante: quem cuida de quem cuida?
Ao longo da minha fala no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, intitulei essa provocação de “Quem cuida do cuidador? A importância da saúde mental para o profissional da educação”. E parto de uma constatação clínica: quando aquele que cuida se encontra ferido, algo do processo educativo também se fere. O educador, muitas vezes imerso na doação cotidiana, esquece-se de que também é sujeito de necessidades, de limites, de dores que pedem elaboração.
A psicanálise nos lembra disso de maneira contundente. Freud nos ensina que “lá onde o id estava, o ego deve advir” — isto é, é preciso simbolizar aquilo que não encontra palavra, sob pena de que o não dito se inscreva no corpo como sintoma. Irritabilidade, fadiga crônica, ansiedade, insônia ou um afastamento afetivo são sinais de que o sujeito-educador já ultrapassou o limite do suportável e precisa dirigir o olhar para si.
Winnicott acrescenta outra chave fundamental: “só se pode sustentar o outro quando também se é sustentado”. É no amparo recebido que o professor encontra as condições de oferecer acolhimento genuíno. Cuidar, portanto, não é um ato isolado, mas uma experiência relacional — exige que o educador também esteja nutrido de afeto, de equilíbrio, de sustentação.
Já Lacan nos recorda que “é do vazio que nasce a criação”. O educador não precisa ocupar o espaço da onipotência, como se tivesse sempre de apresentar respostas prontas. O direito ao silêncio, ao descanso, ao brincar, faz parte do processo de sustentar o ato educativo. O vazio, longe de ser um fracasso, é possibilidade: é nele que o novo pode emergir.
Na palestra, destaquei três movimentos fundamentais de autocuidado que não se restringem ao plano individual. Cuidar de si reverbera na comunidade escolar: alunos aprendem tanto pelas palavras quanto pelos exemplos, e um professor que se reconhece sujeito inspira seus estudantes a também valorizarem a saúde mental e o equilíbrio.
Mais que uma conferência, este encontro foi um convite à responsabilidade partilhada. Se a escola é lugar de produção de saber, deve também ser espaço de acolhimento para quem ensina. Afinal, cuidar de si não é apenas autopreservação: é também gesto de amor pelos que nos cercam.
No casarão do Anchieta, as reflexões ecoaram como lembrete e convocação para toda a comunidade escolar: formar gerações exige fortalecer aqueles que, dia após dia, se entregam à missão de educar. Porque cuidar do educador, no fim das contas, é cuidar da própria educação.
Mauro Ricardo de Freitas – Psicanalista












