A necessidade da arte (Março/2023)

21/03/2023

Todo início de ano, começo minhas aulas com dicionário na mão. Chego na sala, encosto na mesa e solenemente abro meu dicionário. Procuro devagar, e enquanto percorro o livro com meus dedos e folheio as páginas, observo de canto de olho os alunos ficando cada vez mais curiosos. Eles se sentam e esperam respostas: O que ela está procurando???

 Nos dicionários é possível encontrar as seguintes definições para a palavra ARTE:  1. Habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. 2. conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos, técnica.

Se você, assim como eu, não se satisfaz com essas definições, certamente em algum momento de sua vida a arte ganhou significados e valores que transcendem a técnica e esbarram no campo sensorial afetivo!

Na verdade, desde os primeiros filósofos gregos os homens tentam encontrar uma definição de arte que seja satisfatória e principalmente universal. No entanto, sempre que falamos em arte precisamos compreender que seu processo criativo, sua fruição e reflexão estão intimamente ligados ao campo e contextos culturais e históricos específicos. Ou seja, a forma como um grego que viveu antes de Cristo compreende a arte certamente é diferente de um pintor barroco que viveu no século XVII ou a forma como você, que vive em pleno século XXI vivencia e compreende a arte não faria o menor sentido para um aborígene australiano que viveu no século XIX!

Tentar definir ARTE é, no mínimo, diminuir a força e a extensão de um aspecto cultural tão importante. Desde o homem pré histórico encontramos na arte uma força latente e um caminho para construir a expressividade não só individual como coletiva. Se comunicar é uma necessidade humana e, consequentemente, produzir arte também é.

Ernest Fischer, importante filósofo e crítico de arte do século XX, em seu livro “A necessidade da arte” nos diz: “A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la, como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade”. É com esta noção, que remete ao protagonismo e ao acolhimento, que gosto de explicar o sentido de ARTE.

Feche seus olhos e se imagine em uma apresentação de ballet clássico, em uma procissão do Sírio de Nazaré, dentro do Louvre, ou em um quadro de Portinari o que encontramos é sempre a noção de expressividade construída à partir da relação entre o olhar do artista e do espectador. O que você pensa? O que você sente diante dessas expressividades? Esbarramos na pluralidade de visões de mundo. E é nesse breve instante, como um fio condutor de eletricidade, uma espécie de epifania, que descobrimos o real sentido da arte e nos tornamos humanos. Se você ainda não sentiu ou entendeu o poder da arte, certamente, ainda não procurou o suficiente.

Que tal começar a procurar ainda hoje? Ouça uma música, dance, sinta, pinte, construa, expresse! Nunca é tarde para iniciar essa viagem. Uma boa jornada!

Por Ketrine Nunes Pinheiro, professora de artes do Colégio Anchieta

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