Aceitar e valorizar as imperfeições (Setembro/2023)

25/09/2023

A festa da colônia japonesa, me fez lembrar do “KINTSUGI”. Quando os japoneses consertam objetos quebrados, eles exaltam o dano preenchendo as rachaduras com OURO. Eles acreditam que, quando algo já sofreu danos e tem, portanto, uma história, torna-se mais bonito e único. Uma potente metáfora sobre a importância de aceitar e valorizar as imperfeições, educando nosso olhar frente às adversidades.

E fiquei pensando como podemos trazer essa imagem do KINTSUGI para aplicá-la às tarefas cotidianas de uma casa de educação. Sem dúvida, muitas possibilidades podem ser levantadas. Podemos optar por OLHAR e CALIBRAR as pupilas através da leitura do Projeto Educativo Comum-PEC da Rede Jesuíta de Educação Básica, que fomenta que “os processos educativos podem ser transformadores de vidas e realidades”.

Para tal, penso um VASO DE ARGILA. Talvez alguns vejam no vaso situações que expressam a própria dinâmica da vida de quem trabalha com educação. É comum, no manuseio, que vasos sofram quedas ou esbarrões, revelando assim algumas imperfeições. Talvez o vejamos depois de uma situação inesperada transformado em fragmentos pontudos e separados de argila, espalhados no chão. Como reagiríamos diante disso? É fácil supor que muitos apenas varreriam os cacos e os descartariam numa lixeira, não é verdade? Depois é só repor, colocando outro no lugar. Talvez essa é a visão pragmática, de quem quer resolver tudo rapidamente, porém com uma visão mecânica e um comportamento “esperado”, “rotineiro”. Na educação jesuítica, essa não é uma possibilidade!

Pode ser que uma pessoa agindo assim, teve o vaso quebrado em suas mãos e por não prestar atenção na potencialidade da peça ser recomposta e voltar a servir, optou por descartá-la sem mais. Provavelmente, esse vaso estava em uso e ornamentava um ambiente, ocupando um lugar no tempo e no espaço. Que tem isto a ver com a promoção de uma educação de excelência segundo as diretrizes da RJE?

Penso no desafio de aplicar três princípios que encontrei no PEC, que com vantagens podem substituir o PAPEL DO OURO no ‘KINTSUGI’. E, para organizar o pensamento e a imaginação, podemos pensar TRÊS MOMENTOS: o da queda do vaso; o do tratamento dos cacos; o da ação restauradora.

Para facilitar esse propósito podemos agora lembrar que:

O princípio ‘Cuidado com a pessoa’ diz da “postura acolhedora expressa por meio do diálogo e da abertura ao outro”. Esse princípio faz o papel do ouro no primeiro momento. Que seria isto dentro das tarefas de educar a pessoa toda para a vida toda?

O princípio “Discernimento”, próprio do espírito inaciano, que “orienta a missão educativa e a elaboração de projetos de vida”, ambas voltadas a uma ordem de coisas mais JUSTAS, RECONCILIADAS, FRATERNAS E SOLIDÁRIAS. O discernimento alcança uma atitude interior (o coração), para depois influenciar a visão da realidade ao nosso redor (como VER um vaso partido) e, logo, o projeto de ação.

O princípio do “amor – serviço” que faz-nos sentir criaturas de Deus que têm por modelo a Humanidade de Jesus Cristo, e desperta-nos a assumir respostas solidárias (que une o que se isolou) e FRATERNAS, encarnadas por meio da atuação no mundo e dirigidas ao ambiente e aos demais seres criados.

Esse é o momento do ouro em forma do bálsamo da CARIDADE CRISTÃ, que, como São Paulo ensina,

é paciente, é verdadeira, sabe ouvir, sabe se compadecer, sabe sorrir e perdoar a todos. Esse projeto de reconciliação e do cuidado das pessoas se renova no nosso cotidiano, talvez dezenas de vezes em nossas salas de aula, nos espaços esportivos e culturais, salas de atendimento, no desafio das pastorais, e diante de todos que integram a comunidade educativa do Colégio Anchieta.

Finalizo essa reflexão com a oração a São José, grande mestre da vida e do trabalho que de tão humano tem um quê de divino:

“Alcançai-me a graça de trabalhar com ordem, constância, intensidade e presença de Deus, sem jamais retroceder ante as dificuldades; de trabalhar, acima de tudo, com pureza de intenção e desapego de mim mesmo, tendo sempre diante dos olhos todas as almas e as contas que prestarei a Deus do tempo perdido, das habilidades inutilizadas, do bem omitido e das estéreis vaidades em meus trabalhos, tão contrárias à obra de Deus.”

Por Luciana Caldeira da Silva Carestiato Daniel – Coordenadora da Comunicação

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