Cigarro eletrônico e doenças bucais (Outubro/2023)

18/10/2023

A cárie dentaria, ainda nos dias de hoje, é a doença bucal de maior prevalência, seguida das doenças periodontais (gengivas e tecidos de suporte) sendo motivo de preocupação mundial. A saúde bucal é considerada um indicador de qualidade de vida uma vez que as doenças bucais podem levar a dor e perda de elementos dentários afetando a fonação, mastigação e nutrição, o convívio social bem como a saúde geral do indivíduo. No entanto, medidas básicas como escovação, uso do fio dental, cremes dentais fluoretados e o consumo inteligente do açúcar (observando a frequência do consumo de sacarose) são suficientes para o controle dessas doenças. 

O tema cárie e doença periodontal é de extrema relevância para a saúde pública, no entanto, neste artigo tratarei de outro assunto que tem sido motivo de alerta para os profissionais de saúde, inclusive para os cirurgiões dentistas pela sua correlação direta com doenças bucais. 

Trata-se do cigarro eletrônico ou vape cada vez mais divulgado e utilizado por crianças e adolescentes em todo mundo e no Brasil também. Ao contrário do que muitos pensam o uso de cigarros eletrônicos não é menos maléfico a saúde do que os cigarros convencionais, portanto esses dispositivos não são alternativas para os usuários de cigarros convencionais. Os cigarros eletrônicos causam dependência física, pois contêm nicotina e causam dependência comportamental uma vez que repetem os comportamentos de uso do cigarro convencional, como os movimentos mão-boca, inalação e expiração. Outra questão relevante e comprovada é a iniciação do uso do cigarro convencional, a partir do uso do cigarro eletrônico. 

Segundo o INCA “Os cigarros eletrônicos expõem o organismo a uma variedade de elementos químicos gerados pelo próprio dispositivo (nanopartículas de metal) bem como pelo processo de aquecimento ou vaporização, já que alguns produtos contidos no vapor de cigarros eletrônicos incluem carcinógenos conhecidos e substâncias citotóxicas, potencialmente causadoras de doenças bucais, pulmonares e cardiovasculares”. Dentre essas doenças, podemos citar o câncer (principalmente de pulmão, boca, lábios, esôfago, estômago e bexiga), o enfisema pulmonar, a pneumonia, a hipertensão arterial, o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC). Na boca podemos acrescentar as doenças periodontais e consequente perda dos elementos dentários. Além disso, uma doença pulmonar muito comum causada pelo uso do cigarro eletrônico é a EVALI (E- cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury). Acredita-se que essa patologia tenha relação com os diluentes utilizados nesses dispositivos que afetam o pulmão, causando um tipo de reação inflamatória no órgão. A EVALI pode causar fibrose pulmonar, pneumonia e chegar à insuficiência respiratória, levando o paciente a necessitar de internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e seus principais sintomas são: tosse, falta de ar e dor no peito. Sendo comum também dores na barriga, vômitos e diarreias, além de febre, calafrios e perda de peso, podendo facilmente ser confundida apenas com um quadro gripal. 

A comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos são proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária desde 2009 (RDC 46, de 28/08/09), porém esses produtos são vendidos ilegalmente pela internet, no comércio informal ou, ainda, podem ser adquiridos no exterior para uso pessoal. 

A educação e a informação ainda são a melhor arma contra o tabagismo. Neste sentido, o PNCT (programa nacional de controle do tabagismo) articula a Rede de tratamento do tabagismo no SUS, o Programa Saber Saúde, as campanhas e outras ações educativas e a promoção de ambientes livres da fumaça. O nosso município é contemplado pelo programa em várias unidades de saúde espalhadas pela cidade e ao longo dos anos tem educado e ajudado muitas as pessoas com a cessação do hábito de fumar. 

O fumo é um dos principais fatores de risco evitáveis e responsável por mortes, doenças e não há nível seguro de exposição aos cigarros. A única maneira de proteger adequadamente fumantes e não fumantes é eliminar completamente o uso dos produtos fumados, inclusive com sua proibição em ambientes fechados. 

Por Marcia Chevrand, Cirurgiã-dentista, Perita judicial odontóloga e grafotécnica, Coordenadora de grupos do programa nacional de controle do tabagismo em Nova Friburgo, Especialista e Mestre em Dentística Restauradora e Doutora em clínica odontológica e Antiga Aluna do Colégio Anchieta (turma 1990). 

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