Estratégias para conter a pobreza menstrual no Brasil Contemporâneo (Setembro/2023)

20/09/2023

No filme “Barbie” é retratado um mundo liderado por mulheres, cuja governança é voltada para os desejos e necessidades desse grupo. Transpassados os limites ficcionais, hordiernamente no Brasil, a realidade vigente mostra-se antagônica ao cenário cinematrográfico, visto que direitos femininos básicos como o da higiene menstrual são constantemente violados, caracterizando o fenômeno da pobreza menstrual. Nesse viés, notam-se o machismo estrutural e a negligência estatal como fatores que fomentam essa nefasta conjuntura. Dessa forma urge discutir estratégias para conter esse óbice no Brasil contemporâneo.

Em primeira análise, é lícito pontuar o enraizamento das ideias machistas como agente catalisador dessa problemática. Segundo a socióloga Simone de Beauveir, a mulher foi colocada-historicamente – como um ser em interdição pelo poder masculino. Decerto, a consolidação da hegemonia masculina nas maiores instâncias dos diferentes cargos sociais é um fenômeno secular e auto mantenedor, já que os governantes adotam estratégicas legislativas e judiciais que priorizem os anseios dos homens, atuando em detrimento da moralidade, da constitucionalidade e do respeito aos direitos salutares das mulheres. Nesse sentido, fica visível a falta de políticas públicas que atendam plenamente os requisitos para uma condição minimamente humana de saúde feminina, como a não gratuidade dos absorventes menstruais, a ausência de saneamento básico e de infraestrutura sanitária escolar e laboral, por exemplo. Assim, são necessárias ações que garantam um protagonismo político feminino, para que sejam adotados planos de atuação direta e eficaz, a essa celeuma.

Outrossim, é válido analisar o omisso caráter da atuação estatal em solo verde-amarelo. Na sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago conceitua como “eclipse de consciência” a falta de sensibilidade de um indivíduo -o Estado – perante os simpósios enfrentados pelo próximo – nesse caso, a parcela feminina social. Indubitavelmente, essa negligência insensível e, propositalmente cega do governo mostra-se presente na contemporaneidade brasileira uma vez que a esfera estatal trata a pobreza menstrual de forma superficial e agrícola, considerando um dos problemas – a falta de absorventes – isoladamente e interruptamente. Exemplo disso é o fornecimento mensal de apenas 8 protetores menstruais, insuficientes para uma higiene adequada e, enquanto isso, o sucateamento do sistema sanitário nacional, contribuindo para manutenção dessa realidade. Logo faz-se imprescindível a reversão desse óbice.

Torna-se evidente, portanto, a tomada de medidas que visem investigar o problema em questão. Para isso, a mídia-poderoso agente corretivo – deve, por meio da vinculação de propagandas e demandas com líderes mulheres, incentivar o protagonismo político feminino, a fim de que esse grupo tenho maior representatividade na administração pública. Ademais, o Governo – responsável pela garantia dos direitos cidadãos deve, por intermédio da distribuição de renda às Secretarias de saúde estaduais, investir na estruturação sanitária de escolas e espaços laborais, tal como distribuir gratuitamente maior quantidade de absorventes, como o feito de minimizar a pobreza menstrual no país. Dessa maneira, a Pátria aproximar-se-á do mundo retratado no longa-metragem “Barbie”.

Por Manuela Braga L. Pitaluga, Aluna do 3º Ano do Ensino Médio

Outras Publicações

  • O acúmulo de jornadas de trabalho diante do endividamento (Maio/2026)
    19/05/2026
    No seriado de TV “Tapas e Beijos”, o personagem Jurandir é colocado em uma posição em que é necessário aumentar sua jornada de trabalho, ao garantir o segundo emprego, para que seja possível quitar sua dívida. Nesse contexto, o seriado retrata uma realidade muito próxima à vivência da classe trabalhadora brasileira que, ao estar integrada
    Ler mais
  • O combate aos discursos misóginos na sociedade contemporânea (Maio/2026)
    14/05/2026
    Ângela Diniz, importante socialista brasileira, tem a sua morte como um marco na luta contra a misoginia e o feminicídio no Brasil, uma vez que, ao ser assassinada pelo seu companheiro, causou mobilização por todo o país, visando enrijecer as leis em relação a crimes contra mulheres. Antigamente, a persistente presença de discursos misóginos na
    Ler mais
  • Desafios para a valorização da arte de periferia no usuário cultural brasileiro (Abril/2026)
    04/05/2026
    O “funk”, estilo musical, surge nos Estados Unidos e chegou às periferias brasileiras em meados dos anos 70, sendo hoje um dos gêneros musicais mais conhecidos no Brasil. Apesar desse tipo de música ser muito aclamada, uma substancial parcela da população subjuga-a devido à sua origem periférica. Desse modo, a fim de compreender os desafios
    Ler mais