PENSAR A VONTADE DE DEUS (Julho/2025)
No dia 31 de julho, a Igreja celebra a memória de Santo Inácio de Loyola. Inácio, através dos Exercícios Espirituais, abriu novos e importantes horizontes para a Igreja do século XVI — alguns deles perduram até hoje. Diversos papas incentivaram a Igreja a aplicar o caminho ou método espiritual inaciano para buscar, encontrar e realizar a vontade de Deus. Enfim, a vida e a obra de Santo Inácio de Loyola são como um diamante: podem ser vistas, admiradas e empregadas na vida de pessoas e instituições que desejam discernir os seus caminhos futuros.
Nosso interesse é despertar em você o desejo de conhecer o discernimento inaciano com a finalidade de aplicá-lo na vida cotidiana. O Papa Francisco resgatou, no Sínodo sobre a Sinodalidade, a conversação espiritual, incentivando assim a Igreja a caminhar na escuta do Espírito Santo, pois Ele fala através de todos. A Igreja, como ouvinte do Espírito e iluminada por Ele, procura encontrar a direção do caminho de conversão nos tempos de hoje. A conversação espiritual é parte importante do discernimento.
Recentemente, o Papa Francisco, através da Rede Mundial de Oração do Papa, pediu, como intenção de oração para o mês de julho, que a Igreja rezasse “Pela Formação para o Discernimento”.
O Santo Padre manifestou o desejo de que as pessoas e as instituições, principalmente as religiosas, tenham como critério o discernimento para tomar decisões.
Os jesuítas, filhos de Santo Inácio, a exemplo do Papa Francisco, são mestres em discernimento. O discernimento não é uma metodologia empregada somente nas grandes decisões da Igreja — como foi para a fundação do Colégio Anchieta, há 139 anos, ou recentemente no conclave que elegeu o Papa Francisco. Ele serve para todos e para todas as situações.
A prática de discernir está nos fundamentos da Rede Jesuíta de Educação. Não só por herança, mas pela prática diária. As grandes e as pequenas decisões tomadas pela diretoria ou pelo corpo de funcionários e professores são tomadas depois de serem discernidas. Para formar pessoas “competentes, conscientes, compassivas, críticas e comprometidas” e “ser uma rede de centros inovadores de aprendizagem integral que educam para a cidadania global, com uma gestão colaborativa e sustentável”, toda a comunidade educativa procura estar impregnada do dom e da prática do discernimento, tanto no nível pessoal como no coletivo.
Para fazer criteriosamente um discernimento, é necessário cultivar alguns princípios deixados por Santo Inácio: a oração, o exame de consciência, a indiferença, o silêncio, a escuta, a reflexão pessoal, a familiaridade com a Sagrada Escritura, o acompanhamento espiritual e a intimidade com Jesus. É preciso conhecer os sentimentos e saber de onde eles brotam e para onde conduzem. Buscar entender os movimentos que são produzidos internamente pelas emoções. E conhecer os movimentos gerados em mim pelo meu próprio querer e interesse, para o meu bem próprio, muitas vezes frutos do meu egocentrismo. Para onde me inclino mais: para o Bem que facilita a vida de todos (bem universal) ou para o meu próprio desejo e interesse (bem particular)?
Esses princípios para tomar decisões são cada vez mais importantes na complexidade do mundo de hoje — diante do avanço da Inteligência Artificial, do egoísmo ou no seio da família. Acertar nas decisões pessoais, familiares, institucionais, comunitárias, educacionais e religiosas requer, antes de tudo, conhecer o que Deus quer. E, fazendo o que Deus quer, somos preenchidos de alegria e felicidade, que são virtudes evangélicas.
Um exercício diário, bom para aprender a tomar decisões com discernimento, é parar no decorrer do dia para perceber a direção que os sentimentos estão tomando. Inácio sugere duas vezes ao dia: no fim da manhã e antes de dormir. Perceber a direção para a qual me direcionam os meus desejos e sentimentos: para mim mesmo ou para os demais? Consigo perceber se as minhas decisões foram tomadas impetuosamente, sem pensar, ou pensando mais em mim, sem considerar o outro, sem levar em conta a minha fé? Considerei a vontade de Deus? Busquei somente o meu desejo e interesse?
Qual a qualidade dos meus sentimentos, desejos, sonhos, esperanças…?
Santo Inácio nos deixou algumas regras para o discernimento, que são encontradas no livro dos Exercícios Espirituais. Essas regras podem ser utilizadas criteriosamente na nossa vida diária. E assim vamos aprendendo a nos sentir mais livres e indiferentes, para chegar ao discernimento das coisas mais complexas e de maior universalidade. Deve-se partir das decisões pessoais, cotidianas, do dia a dia, para alcançar o Bem maior.
O discernimento faz parte da vida da Igreja e do cristão. Não é uma exclusividade de Santo Inácio — é bíblico, como se pode observar em algumas passagens da Sagrada Escritura: Rm 12,1-2. Santo Inácio nos deixou a sua própria experiência para buscar, encontrar e realizar a vontade de Deus, o que tanto buscou em sua vida depois da conversão. A sua vida é um caminho de muitas decisões, um caminho de muito aprendizado espiritual, uma vida de discernimento.
O Papa Francisco recomendou à Igreja que rezasse pela formação para o discernimento com as seguintes palavras: “Rezemos para que aprendamos cada vez mais a discernir, a saber escolher caminhos de vida e rejeitar tudo o que nos distancie de Cristo e do Evangelho” e apresentou a seguinte oração para pedir ao Espírito Santo a graça de aprender a discernir:
“Espírito Santo, luz do nosso entendimento,
sopro e suavidade nas nossas decisões,
concede-me a graça de escutar atentamente a tua voz
para discernir os caminhos secretos do meu coração,
a fim de compreender o que realmente é importante para ti
e libertar o meu coração dos seus sofrimentos.
Peço-te a graça de aprender a parar
para tomar consciência da minha maneira de agir,
dos sentimentos que habitam em mim,
dos pensamentos que me invadem
e que, muitas vezes, não percebo.
Desejo que as minhas escolhas
me conduzam à alegria do Evangelho.
Mesmo que tenha de passar por momentos de dúvida e cansaço,
mesmo que tenha de lutar, refletir, procurar e recomeçar…
Porque, no fim do caminho,
a tua consolação é o fruto da boa decisão.
Concede-me conhecer melhor o que me move,
para rejeitar o que me afasta de Cristo,
e amá-lo e servi-lo mais.
Amém.”
PENSAR A VONTADE DE DEUS é aprender a discernir, pois cada vez mais é necessário, no mundo de hoje, discernir as próprias decisões. Santo Inácio é o nosso modelo e os papas Francisco são espelhos para a Igreja. Suas decisões consideram os critérios inacianos para o discernimento. Por detrás de cada decisão existe um caminho longo de conversação espiritual, de prós e contras, intimidade divina, silêncio, oração… para chegar à decisão. Então, é possível REALIZAR A VONTADE DE DEUS.
Rezemos pela formação para o discernimento.
Por Pe. José Carlos Oliveira, SJ.
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