Política, linguagem e educação: a palavra como fundamento da cidadania (Outubro/2025)
A política, em sua acepção mais abrangente, deve ser compreendida como prática orientada à organização da vida coletiva. Aristóteles, em sua obra Política, já definia o ser humano como um “animal político”, ressaltando que viver em comunidade e deliberar sobre os destinos comuns é condição intrínseca à existência humana. É nesse espaço de deliberação que a linguagem ocupa lugar central: sem a palavra não há diálogo, sem diálogo não há construção de sociedade.
O ensino da Língua Portuguesa, nesse contexto, não pode restringir-se ao domínio técnico da norma padrão. Ele constitui-se como instrumento de cidadania. Paulo Freire (1996) defendia que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, enfatizando que a alfabetização crítica deve capacitar o indivíduo a interpretar não apenas textos escritos, mas também os discursos sociais que o cercam. Dessa forma, compreender os mecanismos da língua é, igualmente, compreender as estruturas de poder que moldam o pensamento coletivo.
As estratégias discursivas — metáforas, silêncios, repetições, ironias — estão presentes não apenas em textos literários, mas em pronunciamentos, campanhas e debates políticos. Mikhail Bakhtin (1997) nos lembra de que todo enunciado é dialógico, ou seja, traz em si a presença de outras vozes e intenções. Reconhecer essas vozes, identificar os recursos empregados e avaliar seus efeitos torna-se, portanto, um exercício não apenas linguístico, mas também ético e político.
No Colégio Anchieta, a prática pedagógica busca, justamente, despertar essa consciência crítica. Não se trata apenas de ensinar regras gramaticais ou técnicas de redação, mas de estimular a percepção de que “todo ato de fala é um ato político” (Habermas, 1987). Ao escrever uma redação, ao participar de um debate em sala ou ao interpretar um texto jornalístico, o estudante experimenta a política em sua dimensão fundamental: a negociação de sentidos e a busca pelo entendimento mútuo.
A contemporaneidade, marcada pela rapidez na circulação de informações e pela disseminação das chamadas fake news, impõe novos desafios à educação. Formar leitores capazes de distinguir fato de opinião e de analisar criticamente discursos midiáticos torna-se uma exigência urgente. Nesse sentido, a Língua Portuguesa apresenta-se como via privilegiada para o fortalecimento da democracia, pois possibilita a construção de cidadãos autônomos, críticos e conscientes de seu papel social.
O Colégio Anchieta, atento a essas demandas, reafirma seu compromisso institucional de promover uma educação integral, na qual política e linguagem não se separam. A palavra é compreendida como instrumento de emancipação e transformação, pois é por meio dela que se exerce a cidadania plena.
Paulo Freire recorda que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão” (Pedagogia do Oprimido, 1968). A palavra, nesse sentido, é ponte e mediação: aproxima, questiona e transforma. É nesse horizonte que a prática pedagógica do Colégio Anchieta se insere, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e preparados para participar ativamente da vida democrática.
Assim, reafirmamos que a educação em Língua Portuguesa não se limita ao aprendizado formal da língua, mas se converte em caminho para o fortalecimento da cidadania. O domínio da palavra, associado à reflexão crítica, torna-se o fundamento da política em sua dimensão mais nobre: a construção do bem comum e a busca por uma sociedade mais justa e democrática.
Ivomar Campos Oliveira, Professor de Língua Portuguesa e Redação












