Por que esperar Aquele que já está no meio de nós? (Dezembro/2025)

24/12/2025

No tempo do Advento, a liturgia nos prepara para o Natal, a vinda do Menino Jesus, nosso Salvador. Dizendo assim, parece que Ele se foi, que atualmente estamos sem sua presença no meio de nós e que agora precisamos vigiar, jejuar, orar e fazer caridade para que Ele venha.

Que Ele veio, nós acreditamos e sabemos pelos Evangelhos; mas, por outro lado, também sabemos de sua ascensão aos céus. Contudo, pelas suas próprias palavras, sabemos ainda que não nos deixaria órfãos: Ele estaria sempre conosco até o final dos tempos.

Diz o Evangelho de Mt 28,20:
“Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos.”

E assim diz a liturgia da santa missa: “O Senhor esteja convosco!” — e a assembleia responde: “Ele está no meio de nós!”

Na verdade, esta é a nossa fé: o Senhor nunca se foi. Ele veio uma vez para sempre e habita em sua Igreja e em nossos corações. O Cristo ressuscitado, vencedor da morte e de todo pecado, é esse Espírito que vive em nossos corpos como morada. É uma nova presença, plena e total — em qualquer lugar, em qualquer pessoa, em qualquer tempo. Aí está o Espírito, que santifica e conecta todas as coisas, toda a criação, e trabalha para que sejamos um, como o Filho e o Pai são Um.

Portanto, neste sentido, o Advento, para nós, cristãos, que celebramos como espera, não deveria ser espera alguma. Ao contrário: é Ele que nos espera e não se cansa de bater à nossa porta pedindo para entrar:

“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo.” (Ap 3,20)

É Ele que nos espera sempre de braços abertos, para que se cumpra o pleno Advento — não a vinda do nosso Salvador, que já veio e está no meio de nós, mas a minha vinda, a minha resposta, o meu retorno à casa do Pai, para experimentar aquele abraço restaurador, cheio de misericórdia e paciência.

Quando a liturgia fala em “vigiar sempre”, ela nos chama e nos alerta para não esperar mais: o tempo chegou, este é o tempo da salvação!

“Já chegou a hora de acordar do sono, porque a nossa salvação está mais perto agora do que quando abraçamos a fé. A noite é avançada, o dia está chegando. Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz…” (Rm 13,11b-13a)

Esta é a grande mensagem da liturgia todos os anos para nós, cristãos: o tempo chegou! O tempo de salvação bate às nossas portas. É aqui — na história, no contexto político, social, econômico e religioso — que a Palavra nos convida a deixar que o Senhor, como Espírito de força e santidade, fortaleça nossos desejos e ilumine nossas escolhas na prática do bem. Esse “bem” que se traduz em tudo aquilo que humaniza nossas relações: justiça, verdade, perdão, solidariedade etc. É a vivência dessa prática, como resposta Àquele que nos amou primeiro, que nos salva e nos permite experimentar a alegria de amar como Jesus amou.

Mas a liturgia também nos transmite um senso de urgência:

“Vigiai, portanto, pois não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse em que hora viria o ladrão, vigiaria e não permitiria que sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais.” (Mt 24,42-44)

Pois este tempo que nos é dado, como liberdade histórica, tem data de validade. Não sabemos — como diz o Evangelho de Mateus — nem o dia nem a hora em que cada um de nós terá o encontro definitivo com o Senhor da vida. Daí o apelo à urgência: que este tempo, que nos foi dado como dom, não seja desperdiçado, mas vivido dia após dia, em comunhão com sua presença aqui e agora, pois Ele já está no meio de nós. Assim, quando Ele chegar definitivamente, O reconheceremos e seremos convidados a cear com Ele no banquete do seu Reino.

Concluindo, neste tempo de Advento, a liturgia nos faz três grandes exortações:

Primeiro, que o Senhor já está no meio de nós e nos espera abrir a porta do coração, para que seu Espírito entre e ilumine nossa liberdade, desejos e ações — e assim Ele possa reinar em nós. É um apelo à conversão diária.

Segundo, há uma urgência da nossa parte. Este mundo tão bonito, que Deus criou e nos confiou com a missão de construir um lugar humano e feliz, tem um prazo determinado para cada um, e nunca sabemos quando chegará. Não podemos perder tempo nem nos distrair; devemos focar nossas escolhas naquilo que não passa, naquilo que dá sentido à vida: a qualidade das nossas relações humanas.

Por fim, o Advento fortalece nossa fé na Presença Amorosa de Deus, Criador de todas as coisas, manifestada na encarnação de seu Filho, Jesus Cristo. Por isso, nosso encontro definitivo será sempre uma comunhão de alegria e realizará plenamente o sentido de todas as coisas. Esta é a fonte da nossa esperança: lutamos e vivemos por uma causa já vitoriosa! Neste sentido, sim, esperamos nós esse dia feliz em que a glória do Senhor se manifestará plenamente.

Pe. Luiz Antonio Monnerat, Diretor-geral do Colégio Anchieta

Outras Publicações

  • Corpus Christi 2026 (Junho/2026)
    04/06/2026
    A festa de Corpus Christi ocorre no calendário litúrgico na quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade, por sua vez, ocorre no domingo depois de Pentecostes. A festa possui um sentido muito mais profundo do que um feriado ou uma tradição bonita com seus belos e famosos tapetes coloridos pelas ruas de diversas cidades. Ela nos convida a olhar para o centro da fé cristã: Jesus de Nazaré, morto crucificado, ressuscitado pelo Pai, permanece vivo entre nós,
    Ler mais
  • Uma Reflexão Inaciana sobre o Valor do Trabalho (Maio/2026)
    29/05/2026
    Neste mês de maio, celebramos o Dia do Trabalhador, uma data que nos convida a parar, refletir e reconhecer o quanto o trabalho humano é sagrado, digno e transformador. Na perspectiva da Pedagogia Inaciana, essa celebração vai muito além de um feriado: ela é um convite à consciência, à compaixão e ao compromisso com a
    Ler mais
  • Entre Maria e as Mães: um olhar sobre o amor que permanece (Maio/2026)
    25/05/2026
    Não sou mãe e talvez seja justamente por isso que este texto nasça como um gesto de contemplação. Um olhar atento, demorado, admirado diante daquilo que eu penso que a maternidade pode ser. E digo “pode ser” de forma intencional. Porque não há uma única forma de ser mãe. Há mães que equilibram o tempo
    Ler mais