Secularização e a perda do imaginário cristão: diagnóstico, impactos e caminhos possíveis (Setembro/2025)
No início deste mês de agosto, ocorreu em Itaici o 3º Simpósio de Espiritualidade Inaciana. Na ocasião, o Pe. Rossano Zas Friz de Col, SJ, professor de Teologia na Pontifícia Universidade de Comillas, em Madri, apresentou reflexões a partir de sua obra Vida Cristã Inaciana – Novo paradigma para a pós-cristandade. Nela, alerta-nos sobre um fenômeno que cresce silenciosamente em nossa vida pós-moderna, quase de forma orgânica, mas que está longe de ser inócuo. Ele não se impõe com rupturas abruptas, mas infiltra-se no tecido cultural, social e espiritual, transformando-o por dentro. Trata-se da secularização.
O Pe. Rossano destaca que, enquanto fenômeno cultural, social e espiritual, a secularização caracteriza-se por deslocar o sagrado para as margens da vida pública e privada. Isso não apenas altera práticas religiosas, mas remodela a própria forma como percebemos o mundo e a nós mesmos. Ao suprimir referências religiosas, aumenta-se o foco em esferas puramente humanas, imediatas e imanentes — ou seja, viver e pensar apenas no aqui e agora — desprezando qualquer perspectiva transcendental. Não se trata apenas da diminuição de práticas de culto ou da perda de influência institucional das religiões, mas de uma transformação mais profunda na maneira como as pessoas interpretam a realidade.
Na vida contemporânea, marcada pela fluidez das relações e pela valorização do imediato, o sagrado é frequentemente relegado à esfera privada e subjetiva, perdendo seu papel de referência comum para o pensamento e a ação coletivos. Como observa Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, em Vida Líquida: “Vivemos em uma modernidade líquida, na qual as instituições, os vínculos e as narrativas sólidas se dissolvem, e tudo se torna efêmero, momentâneo e voltado para o imediato.”
Nesse contexto, o imaginário cristão — que consolidou e estruturou toda a civilização ocidental — é mais que um conjunto de crenças doutrinárias: constitui um sistema simbólico complexo, capaz de moldar percepções, orientar valores e oferecer horizontes de sentido que ultrapassam o instante presente. Ele se manifesta em narrativas, ritos, imagens e linguagens que sustentam uma visão integrada do ser humano e do mundo, à luz do mistério e do sagrado que transcende toda a realidade. Diante disso, torna-se fundamental compreender como o processo de secularização fragiliza esse imaginário, dissolvendo seus símbolos e deslocando ou suprimindo seus significados. É preciso refletir sobre caminhos para sua recuperação, resgatando sua força como fonte de identidade, esperança e orientação ética para a vida contemporânea.
Compreender o enfraquecimento do imaginário cristão exige, antes de tudo, analisar o cenário cultural em que ele se insere. A secularização não ocorre no vazio, mas no contexto social mais amplo, sendo alimentada por dinâmicas socioculturais que reconfiguram radicalmente a experiência humana. A modernidade líquida, descrita por Bauman, revela um mundo em que nada é feito para durar, onde instituições, compromissos e narrativas comuns se dissolvem na velocidade das mudanças — uma espécie de obsolescência programada e inutilidade pré-definida. Nesse ambiente, símbolos religiosos que antes ofereciam estabilidade e sentido perdem sua força, sendo substituídos por referências transitórias e consumíveis.
Paralelamente, a análise de Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano e professor da Universidade de Berlim, evidencia outro traço desse cenário: a cultura do desempenho e da positividade, na qual o outro — inclusive o “Totalmente Outro” que é Deus — é progressivamente expulso do horizonte humano. O excesso de autoexploração e a busca por gratificação imediata reduzem o espaço para a alteridade, para o mistério e para a contemplação — elementos centrais ao imaginário cristão. Como aponta Han em A Expulsão do Outro: “A sociedade do desempenho e da positividade não suporta o outro, porque o outro é sempre negativo, inacessível, imprevisível.” Assim, Bauman e Han ajudam a mapear o terreno sobre o qual se processa a secularização, revelando não apenas a perda de práticas religiosas, mas a erosão de todo um horizonte simbólico que estruturava a vida em comum.
Na tradição cristã, a moralidade não se reduz a um código de regras, mas constitui formação integral da pessoa. O padre jesuíta Sergio Bastianel, um dos grandes nomes da teologia moral católica contemporânea, ressalta que “a questão não passa pelas regras éticas, mas pela atitude da consciência, a formação da própria pessoa.” Nesse horizonte, o imaginário cristão sustenta valores como o amor ao próximo, a solidariedade, o perdão e a comunhão. Quando essa estrutura simbólica e suas referências transcendentais se enfraquecem, as pessoas imergem em um mundo instável, no qual tudo é fugaz e até as referências se esvaem rapidamente, deixando um vazio profundo, uma falta de propósito e uma angústia existencial. A vida passa a ser pautada apenas pelo consumo, pelo efêmero e pela busca incessante de prazer, aumentando o individualismo extremo, a competição desmedida e a desconfiança social.
A ética fundamentada no Evangelho oferece um parâmetro de valores que ultrapassa interesses pessoais e imediatos. Muitas expressões artísticas, literárias, musicais e arquitetônicas estão enraizadas no imaginário cristão. A perda dessas referências pode levar ao relativismo moral, a uma ética utilitarista ou a comportamentos pautados apenas na conveniência momentânea, empobrecendo também a cultura e dificultando a transmissão de valores que formam identidades coletivas. Além disso, o imaginário cristão oferece respostas consoladoras e perspectivas de esperança diante da dor, do sofrimento e da morte. Sem ele, o sofrimento tende a ser vivido com mais desamparo, desesperança e niilismo.
Diante da erosão silenciosa do imaginário cristão, o Pe. Rossano sugere que a resposta não está na nostalgia ou na mera defesa de formas passadas, mas em um reencontro vivo com a fonte que lhe dá sentido: o mistério de Deus encarnado na história. Recuperar a alteridade, revalorizar o sagrado, adotar uma terminologia que alimente o imaginário social e enraizar-se em comunidades de fé são passos essenciais para reabrir o horizonte espiritual em meio à liquidez e ao imediatismo de nosso tempo. Isso implica cultivar símbolos, narrativas e práticas que formem uma imaginação capaz de perceber a presença divina no ordinário, transformando o olhar e, por consequência, a vida. Assim, a fé não se tornará um resíduo do passado, mas permanecerá como horizonte de esperança e força criativa para o presente e o futuro.
Por Fernando Chabudt de Freitas, Agente de Pastoral












