Uma experiência que une jovens conscientes, competentes, compassivos e comprometidos(Agosto/2025)

22/08/2025

Relatos da Experiência Magis de Inserção Sociocultural no Anchietanum – São Paulo

Entre os dias 29 de junho e 6 de julho, tive a oportunidade de participar da Experiência Magis de Inserção Sociocultural para estudantes da Rede Jesuíta de Educação, acompanhada de duas alunas do Ensino Médio do Colégio Anchieta. Estavam presentes estudantes de quatro colégios da Companhia de Jesus: Colégio São Luís e Colégio São Francisco (São Paulo), Colégio Catarinense (Florianópolis) e o nosso Colégio Anchieta (Nova Friburgo).

Nos principais documentos que norteiam o nosso modo de proceder, encontramos como missão a formação integral dos estudantes, para que sejam competentes, conscientes, compassivos e comprometidos. Quando essas palavras saem dos livros e se transformam em vivências, passam a ser experiências únicas e marcantes para toda a vida. Foi exatamente isso que experimentamos em São Paulo.

Durante a vivência, os estudantes e educadores foram divididos em três obras sociais — Casa Franciscana, Chá do Padre e RECIFRAN — que integram o SEFRAS (Ação Social Franciscana), uma organização humanitária que atua no combate à fome, às violações de direitos e à exclusão econômica e social de populações em extrema vulnerabilidade.

Entre formações e muito trabalho, as experiências foram ganhando rostos, memórias, histórias, aprendizagens, mudanças de hábitos, um olhar mais atento para a Casa Comum e para a vulnerabilidade humana. Tudo isso nos levou a profundas reflexões sobre nosso modo de ser e estar no mundo, despertando em nós o desejo de contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária.

Foi uma experiência intensa e transformadora, marcada pela abertura ao outro, momentos de espiritualidade, partilha e formação acadêmica. Ao acompanhar a estudante Gabriella Barbio Quaresma, da 1ª série do Ensino Médio, ouvi um testemunho que me tocou profundamente:

“Durante toda a experiência, passamos a dar rosto e personalidade às pessoas em situação de vulnerabilidade. E, a partir do momento em que você passa a enxergá-las como seres humanos, e não como números, a ficha cai. Você entende que poderia estar naquela situação.

Após vivenciar tudo isso, passei a ter uma visão mais empática do mundo. Isso me fez realmente me importar com a causa. Não que eu não me importasse antes, mas agora é diferente.

Além disso, levo para minha vida a importância de valorizar trabalhos que muitas vezes são invisíveis. Essas pessoas precisam ser vistas e compreendidas.

Eu saio dessa experiência com uma visão mais humana, entendendo que não é fácil deixar as ruas e que o trabalho dessas obras é fundamental para a vida das pessoas em vulnerabilidade.”

Também me marcou o depoimento sensível e sincero da estudante Natália Ieker Sarno, também da 1ª série do Ensino Médio:

“Quando cheguei ao Anchietanum, logo fomos acolhidas pelo Colégio Catarinense e, ao escolher minha obra, fui com o coração apertado. Ao chegar à Casa Franciscana, fiquei paralisada. Ver mais de 200 pessoas em situação de rua, quietinhas assistindo a um filme, sentadas em cadeiras de plástico nada confortáveis, com frio e com muita fome…

Logo no primeiro dia fiz uma amizade: Michael. Mas, ao longo da semana, todos foram contando suas histórias, mostrando suas personalidades e, assim, fomos criando perfis. Cada um ali era um ser humano que chora, ri, se emociona, se alegra e gosta de coisas diferentes. A única diferença entre nós é que não passamos fome nem moramos na rua. Fora isso, somos todos igualmente humanos.

E sim, eu tinha um preconceito, do qual me arrependi amargamente. Foram tantas emoções, choros, abraços, conselhos como: ‘Estuda’, ‘Vocês são o futuro do mundo’, ‘Nunca use nada químico’…

Vivendo, vendo, ouvindo, percebi que são pessoas com corações puros, carentes, delicados, com um pingo de esperança de que podem — e eu afirmo com certeza — ser alguém na vida, largar os vícios, voltar para a família, serem acolhidos como merecem e realizar tantos sonhos que nos contaram.

Vou agradecer eternamente por ter vivido essa experiência e por ter aprendido tanto.”

Sabemos que essa é também uma experiência das famílias — tanto na acolhida da proposta, com confiança e entrega, quanto na validação de tudo o que os estudantes trazem no retorno, por meio da escuta atenta, da observação e do carinho. Por isso, compartilho também o depoimento da família da Natália:

“Ficamos muito felizes com a oportunidade de a Natália participar desse incrível projeto de formação humana.

No dia da partida, estávamos ansiosos, pois seria a primeira vez que ela ficaria tantos dias fora de casa e longe da família.

Os sete dias passaram voando e, quando ela chegou em casa, já bem tarde da noite, percebemos que precisávamos ouvi-la e fizemos um momento de partilha para acolher tudo o que ela trazia.

Nati falou sem parar por algum tempo. Eram tantas novidades, vivências, impressões e sentimentos em tudo que ela viu, ouviu e sentiu.

A emoção tomou conta daquela partilha. Nossa filha estava diferente — e diferente para melhor. Conseguimos ver nela um crescimento pessoal e espiritual que nos encheu de orgulho. Um novo respeito pela vida humana, pelos menos favorecidos e pelas bênçãos que ela passou a reconhecer em sua própria vida.

Muita emoção!!!”

Agradeço, com o coração cheio de gratidão, a toda equipe do Anchietanum, aos colégios que contribuíram para a realização dessa atividade, às famílias que abraçaram e acreditaram na proposta e, principalmente, aos estudantes que disseram “sim”, sendo mais com os demais.

Por Marcely Jardim da Silva, Assessora de Pastoral

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