Antigos Alunos: Amanda Titoneli (2011) (Dezembro/2022)

Caso me pedissem um dia para falar sobre o que o Anchieta representou em minha vida, certamente me lembraria dele como um velho amigo. Percorreria mentalmente, mais uma vez, o trajeto diário iniciado na rampa em frente ao antigo pré e sentaria ao pé da santinha a fim de ganhar fôlego para subir os jardins sentindo o frescor, por vezes gélido, da brisa incessante que por ali circula. O cansaço da subida seria imediatamente recompensado pela imponente visão do casarão amarelo ladeado de palmeiras verdes e emoldurado por um céu azul que apenas, quando saímos de Nova Friburgo, constatamos não se encontrar em qualquer outro lugar do mundo.

Ao subir as escadas da portaria principal, Seu Luis abriria o sorriso mais acolhedor que já conheci e me cumprimentaria com um “Bom dia, querida!”, para então convidar-me a seguir até o saguão principal e sua majestosa escadaria de madeira emoldurando o jardim interno. Caminharia pelos longos corredores observando os murais com as fotos dos formandos de anos passados e procuraria a foto do meu pai que ,anos antes, também fez todos os dias este mesmo percurso. Quantas vidas foram forjadas aqui? Perceberia então que são exatamente estas fotos penduradas nas paredes de pé direito alto que fazem o Anchieta ser casa, antes de ser instituição, antes de ser o prédio mais bonito da cidade.

Seria inevitável lembrar das Olimpíadas, da horta, das redes de vôlei de areia e a correria quando batia o sinal do recreio para entrar na fila e ser o primeiro a entregar a carteira de estudante ao Murilo, em troca de uma bola. Pensaria nos dias passados ao redor da fogueira em Monnerat cantando Legião Urbana, nos encontros de província e nas reuniões feitas na sala da pastoral. Sentiria falta dos debates, dos trabalhos em grupo, das tardes passadas na cantina estudando para alguma prova, de ir à sala do Pe. Pecci pedir conselhos e de ouvir o Rogerinho informando o fim do recreio com o seu bordão “Fechou, pessoal, fechou!”. Seria natural sentir falta do que já não há mais, como a festa junina no campo de areia ou o tapete de Corpus Christi. Perceberia então que, na realidade, foram as pessoas que transformaram o Anchieta no que até hoje considero minha segunda casa.

Lá, fiz as amizades que ainda carrego comigo, mesmo estando do outro lado do Atlântico.Lá, tive os melhores e mais bem preparados mestres (minha mãe dentre eles) e vivi muitas das melhores experiências da minha vida. Ter estudado no Colégio Anchieta me formou não apenas como aluna e cidadã, mas acima de tudo, como ser humano, e esta foi, certamente, senão o maior privilégio, a maior sorte que já tive. Há exatos dez anos punha os pés neste prédio pela última vez como aluna, porém as marcas por ele deixadas em mim acompanham-me até hoje e tenho certeza de que serão eternas em minha alma. Enquanto houver no Anchieta professores, funcionários, corpo religioso, alunos e pais comprometidos com a educação que Paulo Freire nos ensinou, voltada para a formação de pessoas, a chama “um fogo que acende outros fogos” continuará sempre acesa.

Percebo então que escrevo estas linhas com duas tímidas lágrimas no canto dos olhos, pois para mim, como ex-aluna, o Anchieta é acima de tudo saudade, mas para Nova Friburgo e todos aqueles que têm a sorte de ainda estarem lá, o Anchieta é ainda hoje ,e continuará sendo, história em permanente construção.

Por Amanda Titoneli, antiga aluna da turma de 2011.