
Antigos alunos: Débora Magalhães Binatti (2018) (Março/2023)
Relicário de sonhos
Não dava o devido valor ao Colégio Anchieta durante a minha formação na escola. Era extremamente crítica e ponderei abandonar os jesuítas diversas vezes ao longo da minha adolescência. Jovem rabugenta, tudo era de menos para mim – à exceção das aulas de religião, estas, por sua vez, eram demasiadas. Não gostava de teologia, como protoateia não entendia o papel da espiritualidade na minha formação.
Gostava dos professores, contudo. Nutria por eles um especial carinho, muito embora temesse que as aulas fossem fracas e eles devessem pegar mais pesado, fazer mais simulados, dar aulas de cursinho. Aulas de cursinho! Era essa a referência que eu tinha. Os amontoados de alunos entulhados em uma sala de aula, decorando a matéria para passar em uma prova, por meio de músicas tolas e rimas bobas. Diziam que apenas esse modelo me possibilitaria passar no vestibular, não as incontáveis aulas de debates e discussões, dias de formação, salas de aula invertidas, simulações da ONU.
Estudei desde os meus dez anos de idade até os meus dezoito. Fiz boa parte do Ensino Fundamental e todo o Ensino Médio no Colégio. Pude fazer intercâmbio na Alemanha, um ano inteiro, voltar e depois fazer o ENEM. Não precisei de cursinho fora do Anchieta, a formação que o Colégio me deu foi o suficiente para que eu tivesse nota o suficiente para passar para todas as Universidades Federais do curso que eu queria. Assim como passar na UERJ em Direito. Larguei todas essas vagas, pois o currículo que o Colégio me deu me permitiu passar para a Universidade de Coimbra, Universidade do Minho e Universidade do Porto. Fui para o Porto, faculdade em que estudei por quase três anos. Voltei para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, em que curso Relações Internacionais.
Meus temores, portanto, eram em vãos. Agradeço aos meus pais por não terem cedido às minhas loucuras de abandonar a escola para ir para um cursinho qualquer. Afinal, a formação que o Anchieta me possibilitou foi mais do que apenas decorar fórmulas de física, ou equações químicas.
O Colégio me deu a liberdade criativa de construir a antiga Aurora Científica e entender o processo da divulgação científica.
Ofereceu-me aulas geniais de geografia e história que até hoje contribuem para construção do meu conhecimento no Ensino Superior.
Possibilitou-me aprender a organizar eventos, como a SiNUCA, assim como melhor entender como funciona o modelo das Nações Unidas.
Deu-me a formação literária que me possibilitou publicar meu primeiro livro, Meus Anos Lusitanos, aos 22 anos.
Por fim, possibilitou-me estar aqui, escrevendo para vocês.
Posso não estar mais no Colégio, mas sei que o mesmo me marcou e me ampara. Creio que isso seja o que há de mais precioso. É comunidade. Amorosidade. E isso não tem preço.
Por Débora Magalhães Binatti , antiga aluna da turma de 2018
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