
Antigos Alunos: Fabiana Corrêa (1987) (Outubro/2022)
No meio do caminho tinha um casarão amarelo.
Tinha um casarão amarelo no meio da vida, abrindo o horizonte para tantos caminhos.
Com a licença poética de Drummond, companheiro atemporal do mesmo casarão, mas de vivência diversa da minha, revisito o Casarão Amarelo. Foi lá que plantei meu coração, reguei humanidade, abri o olhar para imensidão, teci amizades e colhi esperança.
Imagino que retorno à casa e abro a porta principal de madeira maciça, transpasso o portal e mergulho no tempo. Sigo de olhos fechados para que o coração me guie na memória de crescimento, afeto, descoberta, segurança e coragem, enquanto deslizo passos de retorno pelo piso polido pelo tempo de muitas histórias. Sinto a imensidão da luz que vaza por todas as janelas. Sinto o abrigo do jardim interno, o silêncio nutritivo da capela, a conversa do vento com as palmeiras do lado de fora. Cada passo adiante, um reencontro. Subo as escadas para encontrar corredores de tantas salas. Através das portas que conduzem para fora, ouço a alegria do intervalo, risadas estrondosas, segredos da cumplicidade de amizades bem fundadas, daquelas que caminham com a gente vida afora. Mas não ouso sair. Continuo o caminho de dentro e espio pelas janelas de vidro das salas de aula. Dentro de cada uma delas reencontro memórias de aprendizado. É certo que, em algumas salas, deixo a porta fechada. Há nelas algumas estranhezas que a memória prefere perder. Mas, de muitas, viro o trinco e entro.
Revisito a sala onde aprendi com Joãzinho as histórias do mundo e da gente. Na sala de Fernando, reencontro a semente da justiça social e ambiental, renovando-me em esperançar. Em outra sala, encontro o círculo perfeito, colorido por muitos símbolos e números. Quando Isaías pergunta se entendi bem entendido, saio pela tangente e digo que nunca vi quadro mais lindo. Na sala recendendo a cadeias de carbono e anéis aromáticos, um papo acelerado com Pisquela. Na sala ao lado, um abraço em Wilson para desoxidar a saudade. Encontro De Luca em outra sala, ainda ensinando que mais do que ângulos e arestas, é importante mostrar que acredita no outro. Mesmo não sendo fã de leis newtonianas e circuitos elétricos, visito a sala de PC e Carlos Augusto onde aprendi que o professor conta mais do que a aridez da matéria.
Antes de mergulhar em outro corredor, sinto o aperto de mão e o sorriso amoroso de Padre Selvagge. Dobro a esquina e sou atropelada por Padre Suaréz, o sempre apressado Padre Xu que um dia me salvou de ser atingida por uma folha de palmeira imperial em queda livre. E lá do final do corredor, me acena padre César, para uma conversa de ensinança onde a ação é uma poderosa oração, quando norteada por justiça, respeito e ética.
Há um novo corredor de salas a me convidar. Escancaro a primeira porta e me sinto entre aprendiz e mestre em lembranças que espairecem. Do ADN à Biosfera, entre mitocôndrias e briófitas sou grata à Marisa e Helênio por despertarem em mim o amor à Biologia que se fez formação e profissão. Não saio dessa sala sem abraçar Padre Josafá que marcou minha alma com clorofila botânica. Há muito ainda para revisitar, o que eu guardo para novos retornos. Por ora, escolho mais uma sala, onde entro com coração em festa e me encontro no abraço amoroso de Ledir. Com ela, trancei meu destino aos de Clarices, Marinas e Cecílias. Dentro dessa sala, cultivei e acreditei que o ler e o escrever eram de todo dia ,e para sempre.
Encerro a vista deixando a luz do corredor acesa e saio sem passar a tranca na porta. Volto em breve, e sempre, ao lugar onde aprendi a ser gente que pensa e que sente, que caminha de mãos dadas com a empatia e que cultiva o amor comprometido com o crescimento próprio e o do outro. Levo a bagagem renovada em memórias e esperança, com a certeza de que, por onde atravesso a vida, da Biologia à Literatura, tem um Casarão Amarelo no meio do caminho.
Por Fabiana Corrêa, antiga aluna da turma de 1987.