Fraternidade e Fome | Campanha da Fraternidade 2023 CNBB (Fevereiro/2023)

24/02/2023

Dai-lhes vós mesmos de comer

Mt 14,16

A Campanha da Fraternidade (CF) foi criada em Nísia Floresta/RN, em 1962, e foi assumida na quaresma de 1964, pelo conjunto das Dioceses do Brasil, tornando-se expressão nacional de comunhão, conversão e partilha.

Em 2023, realizaremos a 60ª edição nacional da CF.

Campanha é um conjunto de esforços e recursos empenhados numa ação planejada e executada para atingir um determinado fim, que é sempre uma parte de um problema maior. Campanhas são diferentes de eventos, são processos, ainda que tenham início, foco e fim bem determinados. Eventos podem produzir um crescimento da consciência, mas campanhas comprometem aqueles que dela participam ou por ela são alcançados. As campanhas, além de ajudarem a compreender em profundidade os problemas, ajudam na ação, na transformação, na mudança real, conforme os seus objetivos.

A CF tem três objetivos permanentes:

1) despertar o espírito comunitário e cristão na busca do bem comum;

2) educar para a vida em fraternidade;

3) renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação evangelizadora, em vista de uma sociedade justa e solidária.

A CF-2023 tem como tema: Fraternidade e Fome, e como lema: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Tem ainda como objetivo geral: “sensibilizar a sociedade e a Igreja para enfrentarem o flagelo da fome, sofrido por uma multidão de irmãos e irmãs, por meio de compromissos que transformem esta realidade a partir do Evangelho de Jesus Cristo”.

É a terceira vez que a CF trata do tema da fome. Já o fez em 1975 e 1985. Desta vez, num contexto de mais de 33 milhões de brasileiros experimentando Insegurança Alimentar Grave (IA Grave). É uma multidão que passa fome, o que significa, na prática, que não sabe quando fará a próxima refeição, independente da sua quantidade (IA Moderada) ou da qualidade nutricional (IA Leve).

Esses números não estão igualmente distribuídos pelo Brasil. Eles se manifestam de maneira mais acentuada nos domicílios rurais, nas regiões Norte e Nordeste, nas famílias que recebem menos de ¼ do salário-mínimo per capita, nos domicílios chefiados por mulheres ou por pessoas pretas e pardas e nas casas onde há ao menos um morador desempregado. Enquanto isso, menos de 10% da população detém mais de 90% da riqueza nacional, com expressivo crescimento dos ricos e suas riquezas durante a pandemia da Covid-19.

O Texto-Base da CF-2023 apresenta as causas e consequências da fome no Brasil e diversas relações necessárias à compreensão do fenômeno da fome no Brasil atual: fome e escassez hídrica, fome e moradia, fome e política, fome e ecologia, fome e educação, entre outras.

Iluminada pelo texto evangélico de Mt 14,13-21, a CF-2023 recorda o olhar e o compromisso de Deus com a fome do seu povo, bem como as profecias sobre o descuido dos governantes pelos mais vulneráveis do povo e as profecias da salvação como um grande banquete onde a fartura e a saciedade são presentes, culminando com a relação entre fome e Eucaristia, especialmente no primeiro relato da última ceia no Novo Testamento (1Cor 11), que nasce do enfrentamento que Paulo faz à realidade da fome em Corinto. O que se ressalta, no entanto, é o mandamento de Jesus aos seus discípulos de ontem e de hoje: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

As ações de superação da fome, expressões concretas de conversão nesta quaresma, deverão acontecer em níveis: pessoal (o que eu posso/devo fazer para superar o flagelo da fome no Brasil?), comunitário-eclesial (o que nós, comunidade-Igreja, podemos/devemos fazer?) e sociotransformador (o que nós, sociedade civil organizada, podemos/devemos fazer para superar a fome?).

Conforme pedimos na Oração da CF-2023, este é o nosso desejo: “confiantes na ação do Espírito Santo, nós vos pedimos: inspirai-nos o sonho de um mundo novo, de diálogo, justiça, igualdade e paz; ajudai-nos a promover uma sociedade mais solidária, sem fome, pobreza, violência e guerra; livrai-nos do pecado da indiferença com a vida”.

Por Pe. Jean Poul Hansen, Assessor de Campanhas da CNBB

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