
Sonho de menina (Agosto/2023)
Era o ano de 1999, quando passou pela primeira vez em minha cabeça a imagem do Casarão Amarelo. Eu tinha apenas 14 anos e, até então, uma possibilidade como a de estudar naquele colégio imponente parecia muito distante da minha realidade social. Mas, acredito que tudo acontece de acordo com a permissão de Deus.
Enquanto estudante da Rede Municipal de Ensino, fui convidada para receber um “presente” na Secretaria de Educação. Nesse dia, cinco alunos da escola onde eu estudava na época, foram selecionados para ganhar uma bolsa de estudos no maior e melhor colégio da cidade. O que eu fiz? Chorei! Na minha inocência, não entendi a oportunidade única que eu estava recebendo naquele momento e não queria ir sem meus amigos mais próximos, mas minha mãe foi enfática e disse: essa é a oportunidade da sua vida! E, de fato, sábia como sempre, ela estava certíssima!
Em 01 fevereiro do ano 2000, numa terça-feira, iniciou-se a minha história de amor pelo Colégio Anchieta. Cheguei tímida, com a camisa azul marinho do uniforme, calça jeans e tênis branco! Desde o primeiro momento, já me identifiquei com aqueles que seriam meus maiores companheiros, estabelecendo vínculos, me apresentando e me cercando de pessoas maravilhosas. Era o início de um Sonho!
Tive total acolhimento por parte dos meus colegas de sala e de outras turmas, além de todo apoio por parte da equipe escolar, diante dos desafios pedagógicos no início desse processo.
Fora o apoio acadêmico, lembro-me como se fosse hoje de todo suporte emocional e espiritual que Pe. Pecci nos dava. Nossa, quanta saudades desse amigo! Eu estava em sua sala diariamente e nossa foto juntos estava sobre sua mesa.
Naquele chão sagrado cresci, sonhei, brinquei, ri muito, fiz meus melhores amigos e vivi os melhores momentos da minha vida!
Como aluna, tive muitas oportunidades de participar de todas as atividades ofertadas no Colégio, e fora dele, foram encontros de convivência em Monnerat e na casa de Oração de Bom Jardim, nucleação dos grupos jovens mais novos, Encontro de Lideranças Inacianas em São Paulo e no Rio, Retiros, coordenação de grupo semanalmente, representação de turma, participação e viagens incríveis com o TACA, Voluntariado (Amigos da Escola), apresentação da formatura e engajamento semanal no Projeto Sopão (onde dizem as más línguas, que só eram convidados a participar do projeto os alunos peraltas, como consequência de alguma atitude inadequada – mas claro, não era o meu caso, já que fui convidada por ter um perfil de acolhimento). Ah, e esse projeto sempre foi a menina dos meus olhos! Nos encontrávamos todas as quartas-feiras, na cozinha do Colégio, para encher as latinhas, organizar os carros e entregar em duas comunidades da cidade. Era um tempo de puro afeto, troca e aprendizagem!
Aprendi tanto… desenvolvi habilidades para toda vida… tive bons exemplos, conheci e explorei tudo o que era possível e, a partir disso, me vi desafiada a buscar sempre o melhor caminho para ser uma pessoa melhor para o mundo.
Era, também, o início do meu projeto de vida!
Estudei no Colégio Anchieta por apenas 3 anos, mas tive a sensação de ser a vida inteira. Os melhores anos! De 2000 a 2002!
Todo o exemplo que tive inspirou a minha escolha profissional e quando escolhi ser professora, foi devido aos grandes exemplos adquiridos ao longo dos meus anos escolares e pelo desejo de ser um canal de transformação.
Durante os anos de formação Universitária, enquanto antiga aluna, me mantive próxima à Comunidade Anchietana, participando de tudo o que era possível aos antigos alunos.
Foram 4 anos na graduação, mais 2 anos e 6 meses de especialização, até que me formei.
Nessa perspectiva, o meu sonho passou a ser o de poder fazer parte do corpo docente do colégio. E, em 2013, pude concretizar mais esse sonho. De antiga aluna à professora do Casarão Amarelo!
Meu objetivo naquele momento era o de poder mostrar o meu amor e a minha gratidão ao colégio através dos valores que ali aprendi, mantendo sua qualidade na missão desenvolvida, visando sempre a excelência humana e acadêmica.
Nesse sentido, de estar totalmente imbuída na visão e nos valores passados a mim e inspirados por um dos ensinamentos de Santo Inácio de Loyola, “Em tudo amar e servir”, pude revisitar em minha memória a experiência de fazer parte do Projeto Sopão e, em 2017, voltar a fazer parte de um projeto semelhante, assistencialista, com moradores em situação de rua, objetivando o resgate à dignidade da pessoa, restaurando sua autoestima, tentando reintegrá-lo à família, encaminhando-os para a casa de acolhimento, recuperação e desintoxicação.
Encontramos situações e histórias que tocavam a alma… e em todas elas e elas, víamos um ser humano, que por motivos diversos, estavam à margem da sociedade.
Passamos por diversas fases… A mais recente, iniciou-se em 2020, onde o projeto tornou-se o SoPãoDemia. Nesse meio tempo, algumas pessoas nos deixaram, porque não é fácil manter a missão, mas fomos brindados com a presença de tantos outros.
Entendemos que nossas ações, dentro do projeto, não resolvem, definitivamente, os problemas sociais enfrentados por cada indivíduo em situação de rua. Porém, servem para amenizar a situação enfrentada por muitos deles, levando o alimento a quem não o tem e, principalmente, valorizando-o em sua integralidade.
Nessa mesma fase, em 2020, passei a ser Orientadora Educacional da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I do Colégio Anchieta e organizadora do projeto, junto de dois amigos, um, que é pai de alunos do colégio, e o outro, que também é antigo aluno.
Juntando esses dois sonhos, para melhor servir, retornei à Universidade, dessa vez, para o curso de Psicologia no desejo de desenvolver novas competências e proporcionar uma profunda reflexão sobre a identidade inaciana e a missão que vivem em mim, auxiliando de forma mais eficaz, esses dois públicos, totalmente distintos, mas que se complementam em meu sonho de menina.
Quando somos úteis e nos sentimos mais ativos socialmente, o modo como percebemos a vida ganha outros significados, muito maiores e, dessa forma, nos tornamos pessoas melhores e nunca deixamos de sonhar.
Por Livia da Silva Moraes, Orientadora Educacional na Ed. Infantil e Fund.1